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Contra as más influências

Comparar a viagem das redes com a sua é acreditar em fake news

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2019 | 17h00

Eu sigo no Instagram várias mães e alguns pais viajantes que são ou querem ser influenciadores. 

Uma dessas mães tem três filhos, dos quais dois são bebês de 2 anos e 1 ano. Voam necessariamente de executiva. Os bebês sempre parecem estar de bom humor, ou dormem tranquilos deitados nos seus assentos que viram camas. Em pleno avião e cercada de filhos, essa mãe tem sempre a maquiagem impecável, os cabelos soltos e com balanço, a blusa limpa e no lugar.

Ela cria hashtags juntando a idade dos bebês e o número de países que visitaram – #12months24countries, por exemplo. 

A família parece não passar mais de uma semana seguida em sua cidade de origem. Com tanto tempo fora de casa, não imagino como deve ser a situação escolar da criança mais velha, de 9 anos. Mas sei que essa criança sabe esquiar com perfeição desde os 4. Também mergulha, rema caiaque, está aprendendo a surfar e, para relaxar num quarto de hotel de luxo, usa roupão branco felpudo, roupão de rico. 

Essa criança maiorzinha fala duas línguas além da sua de origem. Come comida rebuscada de chef, come polvo, pato, rabanete, couve-de-bruxelas assada. A mãe, orgulhosa da versatilidade de suas crias, faz legendas sobre a importância de viajar para expor os pequenos à diversidade. Obviamente a palavra diversidade aparece junto de crianças africanas que a família influenciadora visita em passeios organizados por lodges chiquérrimos no Quênia e na África do Sul. 

A realidade

É claro que estou usando um exemplo extremo. Mas ele serve para mostrar que famílias influenciadoras criam uma ilusão de viagem perfeita. E deixam a gente com a sensação ruim de que, se algo dá errado na nossa viagem com filhos, é por incompetência nossa. 

Parece até que só as nossas crianças dão chilique no avião e atraem para a gente olhares de raiva e piedade; caem da bicicleta e fazem a família abandonar o bike tour guiado; passam uma semana comendo bolacha e macarrão, sem disposição para experimentar nada da culinária típica do destino. 

LEIA TAMBÉM > Afinal, o que querem as famílias viajantes?

Meu olhar treinado por dever de ofício me ensinou a “pescar”, na perfeição postada nas redes sociais, a parte da história que fica escondida de propósito. Se as fotos da família quase nunca são selfies, se mãe e pai conseguem fazer massagem em casal no spa, há alguém que não aparece nos posts, mas que viajou junto e proporciona tudo isso: a babá. 

Se cinco pessoas voam de executiva e se hospedam em hotéis cinco-estrelas, qualquer semana no Hemisfério Norte chega perto dos R$ 100 mil de custo total. E esse dinheiro todo reduz muito a chance de passar aperto – ou garante que alguém resolva tudo para você. 

A gente esquece que filho de influenciador, influenciadorzinho é. A criança ensinada a se importar com curtidas aprende trejeitos e faz coisas que não faria sem câmera por perto. Vi acontecer num parquinho. A menininha com medo de subir num brinquedão, depois que chegou lá no alto e viu o pai apontar para ela o celular, esqueceu o medo, colocou a mãozinha no queixo e, cheia de caras e bocas, começou: “Oi, eu sou fulana, estou em Évora e hoje vou mostrar para você a minha brincadeira nesse parquinho”. Daí para posar com um polvo suculento que ela jamais comeria, é um pulo. 

Existe conteúdo interessante de famílias viajantes? É claro que sim. Mas não custa lembrar que esses pais, mães e mesmo as crianças fazem isso profissionalmente (ou estão em busca dessa condição). É um trabalho. Com os benefícios e as desvantagens inerentes a qualquer trabalho. E com mais apoio especializado do que têm os viajantes comuns. Comparar a viagem da sua família com a dos influenciadores e seus filhos é acreditar em fake news. 

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