Luis Robayo|AFP
Luis Robayo|AFP

Contra zika, infectologista recomenda 'pesar a real necessidade de viajar'

Coordenador do Ambulatório de Saúde do Viajante recomenda que gestantes evitem ir para locais com risco elevado de infecção

Entrevista com

Jessé Reis Alves

Bruna Toni, Estadão

15 Fevereiro 2016 | 18h42

A preocupação com o vírus zika ganhou mais um componente na última sexta-feira: a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou um informe em que orienta mulheres grávidas a adiar a viagem a lugares em que tenham sido registrados casos de infecção pelo vírus, que é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti (leia mais). Diante da possibilidade de transmissão sexual do zika, a OMS recomendou também o uso de preservativos aos homens e mulheres que visitaram locais onde há casos diagnosticados de infecção por zika. 

A entidade internacional não sugeriu desistência da viagem, mas claramente aumentou o nível de alerta aos viajantes. Para o infectologista e coordenador do Ambulatório do Viajante do Hospital Emílio Ribas, Jessé Reis Alves, no entanto, a recomendação vale principalmente para as mulheres que não vivem em área afetada pelo vírus. Segundo o médico, brasileiros que vivem no País estão constantemente expostos ao risco de serem infectados, já que há registro de presença do mosquito transmissor em todos os Estados do País – por isso, é preciso se cuidar o tempo todo. 

Veja a seguir as orientações do infectologista para viajantes diante da emergência do vírus zika. Para outras dúvidas, é possível procurar o Ambulatório do Viajante. O atendimento é gratuito, agendado por e-mail: agendamento@emilioribas.sp.gov.br. 

Estadão: A OMS recomendou que as grávidas adiassem a viagem para lugares com zika. É realmente necessária essa medida?

Jessé Reis Alves: A gente tem de pesar primeiro qual a real necessidade de viajar. Por exemplo, quando a gente tinha a recomendação para o ebola, que a OMS e várias outras entidades recomendavam não ir para o país de transmissão, exceto se a viagem fosse inadiável, até porque lá haveria uma grande restrição de entrada. A mesma coisa vale para as outras doenças todas. No caso do zika, acho que a população que está realmente sob risco é a de gestantes. Embora ainda tenha muitas coisas pra responder a respeito disso, há a real associação da microcefalia com o zika, não há muita dúvida do que o vírus pode causar, o que não sabemos é em que proporção isso vai acontecer. Como estamos cheios de dúvida em relação a isso, nada mais prudente para uma gestante do que evitar locais com risco elevado. 

Estadão: E para homens e mulheres que não estão grávidas?

Jessé Reis Alves: Para quem não está sob esse risco, não vejo muito a necessidade de restringir a viagem. É importante usar as medidas de proteção individuais, que não serão infalíveis, mas vão reduzir bastante o risco da picada de mosquito e é o que se pode fazer individualmente no momento.

Estadão: O uso de repelente e roupas compridas? 

Jessé Reis Alves: Exatamente. É até importante falar um pouco dos mitos. Agora parece que a moda é tomar cinco gotas de própolis por dia para prevenir picada de mosquito, tem gente falando isso em tudo quanto é lugar. Essas coisas não têm fundamento, o complexo B não evita picada de mosquito. O que temos de dado fundamentado é o uso do repelente.

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Estadão: Existe diferença entre os repelentes? 

Jessé Reis Alves:  O Exposis é à base de icaridina, é um bom repelente e mundialmente reconhecido. A duração depende da temperatura. Se a pessoa está transpirando muito, tem de reaplicar em intervalos menores. Os outros (produtos), à base do DEET, o problema é que a concentração é muito baixa. Em geral, recomendamos o DEET acima dos 30%, e no Brasil, o máximo que disponível no mercado é 15%, o que confere um tempo de proteção curto. É eficaz, só que vai durar pouco tempo, então você tem de reaplicar em torno de 1h30, 2 horas. 

Estadão: Usar repelente mais de três vezes por dia pode ser tóxico?

Jessé Reis Alves: Não há embasamento para isso. De maneira geral, os repelentes são seguros. Esses que são a base do DEET têm décadas de uso, mais de 50 anos, com pouquíssimos casos de toxicidade, geralmente por mau uso do produto, ingestão acidental, porque usou na mucosa, nos olhos, na boca. Se usar corretamente, o risco atual de zika é maior do que a gente ter toxicidade por repelente. Acho que a gente tem de pesar um pouco isso.

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Estadão: É mais seguro do que usar roupa comprida, tela, essas outras formas de prevenção?

Jessé Reis Alves: A gente tem de tentar uma combinação de tudo, porque todos eles são falíveis. Tem de juntar tudo para tornar o mais protegido possível. Roupa que protege a pele dificulta a chegada do mosquito; repelente dificulta mais ainda. Alguns repelentes, como esse da icaridina, podem ser jogados sobre a roupa, então isso aumenta ainda mais a proteção. Usar telas dentro de casa, se puder dormir debaixo de um mosqueteiro, melhor ainda. A questão é que o Aedes aegypti atua mais durante o dia, então essa coisa de mosquiteiro funciona melhor para malária, que é um mosquito que tem hábitos noturnos.

Estadão: Melhor levar na mala ou tudo bem comprar o repelente fora?

Jessé Reis Alves: Ás vezes as pessoas não tem como levar grandes quantidades de repelente na mala, então é importante saber pelo menos quais são os princípios ativos. Esses dois são os que a gente mais recomenda, o DEET e o icaridina.

Estadão: A concentração de casos de zika no Hemisfério Sul tem relação com o clima, certo? 

Jessé Reis Alves: Sim, é onde se prolifera o mosquito. Tem Aedes em toda a Ásia, toda a América do Sul, alguns países da África. Clima quente, onde chove e acumula água facilita a proliferação. Em locais com invernos mais rigorosos, o mosquito se prolifera menos.

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Estadão: Para onde é mais arriscado ir nesse momento? 

Jessé Reis Alves: No Brasil, todos os Estados têm o mosquito. Alguns (Estados) conseguem controlar um pouco melhor. Os do Sul tem um controle melhor até mesmo pelo clima mais favorável. Claro que nos Estados do Nordeste, a proliferação é um pouco maior, porque aí junta as questões do clima, do saneamento urbano, que estão diretamente correlacionadas. Mas no Brasil, em todos os lugares que a gente for, a gente tem de se proteger.

Estadão: E fora do Brasil?

Jessé Reis Alves: Alguns países asiáticos também tiveram epidemia de dengue e tem todas as possibilidades de ter zika, na Polinésia Francesa teve zika e poderia ter se espalhado para outros países da região.

Estadão: Alguma outra recomendação para os viajantes? 

Jessé Reis Alves: Na escolha da hospedagem, fazer pesquisa prévia. Se tem ar condicionado, já facilita bastante. Não tem ar, mas tem mosquiteiro, também é bom. Também podem passar aqui pelo Ambulatório do Viajante. É uma consulta que leva em torno de 40 minutos, 1 hora só discutindo prevenção, informando, orientando. 

 

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