Corrida sem pressa pelos sabores e cenários franceses

Rota do Tour de France merece ser apreciada tranquilamente, com paradas em vinhedos e vilarejos históricos

Raf Casert, AP, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2010 | 02h21

FONTEVRAUD

Para quem vê o Tour de France (a partir de 3 de julho) na televisão, as imagens de pastos montanhosos, vilarejos e monumentos são tão interessantes quanto a própria corrida. Por isso, com todo respeito a Lance Armstrong e seus companheiros, minha mulher e eu decidimos trilhar nosso próprio tour ? um que Armstrong não pode fazer.

Por três semanas, demos uma longa volta pela França, do leste até a Borgonha e além. Pelo sul, ao longo do vale repleto de vinhedos do Rhône antes de cruzar o Midi, como é conhecido o sudeste da França. Devagar, fizemos nosso caminho Atlântico acima, até chegar em Fontevraud, entre os opulentos castelos de Loire.

Não deu para sentir falta do trânsito pesado ou dos caros estacionamentos, nem dos garçons mal-humorados de casas onde a única coisa que se assemelha a um restaurante estrelado é a conta. E deixar Paris e Bordeaux fora do roteiro não diminuiu o espírito francês da viagem ? au contraire.

Certa noite, depois do jantar na abadia medieval de Fontevraud (hoje um hotel), saímos para um passeio: uma luz parecia chamar para fora do monastério. Foi quando nos vimos cercados de atores que ensaiavam uma peça da igreja. Ao mesmo tempo, tínhamos um vasto tesouro romanesco só para nós. Logo circulávamos entre pilares e as tumbas dos Plantagenetas, sobrenome de reis como Henrique II, Ricardo Coração de Leão e Eleanor de Aquitânia.

Em outros dias, viajávamos por rodovias emolduradas por árvores até hotéis ou fazendas nas vilas de Provence e escolhíamos o melhor lugar no terraço para curtir o sol da tarde, com uma taça de pastis, vinho rosé ou Orangina nas mãos.

No lugar de explorar o Louvre, deslizamos de canoa sob a Pont du Gard, aqueduto de 48 metros de altura construído pelos romanos há 2 mil anos. Memorável como o sorriso de Monalisa. E ao invés da multidão na Catedral de Notre Dame, na vila de Chapaize há uma igrejinha do século 11 toda para você.

Nossa parada mais longa foi na Borgonha, lar dos melhores vinhos brancos do mundo. O valioso Chardonnay estava fora de nosso orçamento, mas o Saint Veran e o Maconnais se mostraram excelentes (e menos dispendiosos) substitutos. Sem falar que circular entre um vinhedo e outro foi encantador.

Perto do centro religioso de Cluny, uma parada na vila amuralhada de Brancion, com castelo e igreja do século 12. Dali, seguimos ao sul e cruzamos a divisa onde manteiga vira azeite e telhados pontudos se tornam planos, com telhas vermelhas ressequidas pelo sol. Em nossa base, Castillon-du-Gard, uma rotina peculiar: senhores jogam peteca sob a torre da igreja e o contorno dourado da Pont du Gard pode ser visto nas noites claras.

Ali perto estão o anfiteatro de 2 mil anos de Nimes e o Maison Carrée, um dos mais bem preservados templos romanos do mundo. Há ruínas da época também em St. Remy de Provence, belo passeio de um dia. Foi no hospital da cidade, aliás, que Van Gogh pintou Starry Night e outras de suas obras-primas.

A fotogênica Minerve com suas casas de pedra e becos estreitos integra o grupo das vilas mais pitorescas do país. Mas as ruínas do castelo que marcam a paisagem de Midi Languedoc também contam uma terrível história: as cruzadas da igreja católica, há 800 anos, resultaram em massacres e carnificinas.

Mais longe, a oeste, Gascony e Perigord foram palco para a Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra. As bastides ? vilas fortificadas ? se mostraram eficientes e ainda podem ser visitadas.

Uma parte da França onde campos de girassóis são tão ricos em cores como os pratos em calorias. Não há melhor maneira de conhecer tal região que ir de um mercado a outro, procurando fígado de ganso fresco, melões doces e chasselas feitos com uvas Moissac. Qualquer cozinheiro medíocre se transforma em chef com ingredientes assim.

No caminho para Fontevraud, saboreávamos histórias, comidas típicas e lindos cenários. Poderia ser o começo de um novo Tour de France. Não me admira Lance Armstrong voltar sempre. /

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