Côte D'Azur: sem glamour, com arte

SETH SHERWOOD / NICE , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2014 | 02h05

Devemos ter pena de Nice. Eclipsada por suas vizinhas supercharmosas na Riviera, como a aristocrática Mônaco, Cannes e seu tapete vermelho e a transbordante de champanhe Saint-Tropez, a quinta maior cidade da França é frequentemente considerada um destino sem graça, paraíso de aposentados. Entretanto, ela reúne muito de suas vizinhas – sol o ano todo, o Mediterrâneo, a arquitetura belle époque e art déco – com bônus. Um bairro antigo cheio de personalidade, uma cena gastronômica cativante, os melhores museus da Riviera e elegantes espaços ao ar livre. A Place Garibaldi, no centro, depois de reformada, tornou-se uma área de pedestres, enquanto a região do porto, outrora desprovida de atrativos, reúne restaurantes e bares disputados. E, graças à nova Promenade du Paillon, a cidade tem um belo parque público no centro. Cidade para todos os bolsos, Nice esbanja energia e diversidade que superam suas rivais na costa.

SEXTA-FEIRA
À moda do Mediterrâneo

Caminhar despreocupadamente pelo bulevar conhecido como Promenade des Anglais equivale a um curso intensivo sobre o estilo de vida da Riviera Francesa. Estendendo-se por quarteirões de edifícios ornamentados do final do século 19 e início do 20, a alameda enfeitada de palmeiras é, ao mesmo tempo, um passeio mediterrâneo e um museu arquitetônico ao ar livre.

Entre os palácios de fachadas imponentes com cores de sorvete, destacam-se o hotel Le Negresco (hotel-negresco-nice.com), uma beldade da belle époque construída em 1912, com seu icônico domo rosado, e o Palais de la Méditerranée (nice.regency.hyatt.com), em cuja fachada neoclássica de 1929 estão representados cavalos alados, ninfas e divindades. O terraço do segundo andar do bar Ark (oesta.do/arknice ) é o lugar perfeito para você se refrescar tomando uma cerveja Pietra da Córsega ( 6) ou uma taça do rosé Crazy Tropez ( 4,50), enquanto aprecia os movimentos do mar e da multidão.

Drinques para temperar

Com paredes verdes cor de selva, frisos elaborados, pisos de madeira de demolição, luz de velas e o colorido das flores, o impecável projeto em estilo urbano do restaurante Jan (restaurantjan.com) é esfuziante. Os pratos do chef sul-africano Jan Hendrik van der Westhuizen mostram-se igualmente empolgantes, graças à adição de bebidas alcoólicas e vinho em uma série de variações gastronômicas criativas.

A salada Waldorf, com fatias de maçã crocantes e pedaços quentes de lagostim, tem vestígios provocantes de champanhe e é acompanhada por uma bala de goma de pastis (bebida à base de anis). Do mesmo modo, fatias de peras em calda de vinho emprestam a suculência dionisíaca do caramelo a um prato de cordeiro em molho cremoso. Enquanto isso, um apimentado bobotie (caçarola de carne moída com ovos, uva passa e uma infinidade de outros ingredientes) é acompanhado por damascos embebidos em conhaque para um toque francês. O jantar para duas pessoas, sem vinho, custa aproximadamente 90.

Devemos ter pena de Nice. Eclipsada por suas vizinhas supercharmosas na Riviera, como a aristocrática Mônaco, Cannes e seu tapete vermelho e a transbordante de champanhe Saint-Tropez, a quinta maior cidade da França é frequentemente considerada um destino sem graça, paraíso de aposentados. Entretanto, ela reúne muito de suas vizinhas - sol o ano todo, o Mediterrâneo, a arquitetura belle époque e art déco - com bônus. Um bairro antigo cheio de personalidade, uma cena gastronômica cativante, os melhores museus da Riviera e elegantes espaços ao ar livre. A Place Garibaldi, no centro, depois de reformada, tornou-se uma área de pedestres, enquanto a região do porto, outrora desprovida de atrativos, reúne restaurantes e bares disputados. E, graças à nova Promenade du Paillon, a cidade tem um belo parque público no centro. Cidade para todos os bolsos, Nice esbanja energia e diversidade que superam suas rivais na costa.

SÁBADO
Manhã azul
O cruzeiro das 11 da manhã com a Trans Côte d’Azur (trans-cote-azur.com; A 17,50) é uma janela para as cores do Mediterrâneo. Ao longo de uma hora, o barco sulca as ondas de Nice rumo à histórica aldeia de Villefranche-sur-Mer e ao retiro peninsular de St.-Jean-Cap-Ferrat, presenteando os turistas com um mar azul profundo, bosques verdes, colinas de cor marrom, rochedos cinzentos e areias douradas. No caminho, palacetes da nobreza e de celebridades são apresentados pelo comandante. Será que o rei Faruk do Egito morou realmente na mansão em estilo andaluz? Sem dúvida. Os Rolling Stones se esconderam mesmo por meses num palácio à beira-mar para gravar Exile on Main Street? Sim. E será Elton John passeando pelos gramados do seu castelo no alto da colina? É bem provável. 

Uma refeição honesta
Não se pode acusar o Olive & Artichaut (oliveartichaut.com) de propaganda enganosa. Como sugere o nome, azeitonas e alcachofras, elementos básicos da cozinha provençal, estão nas mesas, no pão e, mais frequentemente, nos pratos deste recém-inaugurado restaurante. Além do risoto com azeitonas e alcachofras com parmesão, você encontrará muita alcachofra (em purê) no filé de bacalhau. As frutas são as protagonistas da sobremesa, do crocante de maçãs à sopa fria de peras brancas. Almoço com três pratos para dois: A 45.

Riviera retrô
Pelas lojas do centro velho de Nice é impossível não ver sabonetes de lavanda, toalhas de mesa de chintz estampado e outros produtos provençais. Butiques retrô mais originais escondem-se, discretas, ao longo das vielas. O glamour da Riviera da época da princesa Grace de Mônaco permanece vivo na Caprice, onde você pode encontrar um vestido de noite de 1970 de Yves Saint Laurent (A 2.500) e sandálias de tiras prateadas Charles Jourdan dos anos 60 (A 35). Os homens acham roupa de praia na Galerie Motus-Art Picking, que oferece óculos de sol em vários modelos dos anos 60 (A 160). Antes ou depois das compras, curta praia – com estilo – no Hi Beach (hi-beach.net), um dos clubes mais divertidos de Nice. As instalações podem ser usadas por meio dia; aluguel das espreguiçadeiras: A 17.

Jantar canalha 
O nome Les Deux Canailles (foto) – Os Dois Malandros – alude ao chef japonês Tsumoru Takano e ao maître Laurent Inoue, que criaram um lugar aconchegante que é uma amostra da cozinha francesa com sotaque asiático. Elegante, mas informal, tem triunfos como a codorna recheada de foie gras, cogumelos e uva passa, e um carpaccio de dourada picante cujas sementes de gergelim, discos de berinjela marinados e tempurá de cebola evocam a terra do sol nascente. Menu a preço fixo de A 49 e A 79; lesdeuxcanailles.com. Com pique, estique a noite nos bares do centro antigo. O Pure é famoso pelos coquetéis fortes e música soul-electro. E o Apotheka, um clube bunker-chique, por exagerar em tudo: música alta, carta de bebidas extensa, shorts curtos e escrúpulos reduzidos.

DOMINGO
Corredor verde
Você não sabe distinguir um fícus de uma figueira? Pois bem, eis um dos conhecimentos que poderá adquirir no Promenade du Paillon (nice.fr/Environnement/La-Promenade-du-Paillon), um novo e ambicioso espaço cultural e científico em que se fundem parque, jardim botânico e recreação. Estendendo-se por cerca de um quilômetro entre os imponentes quarteirões de edifícios em estilo beaux-arts, art déco e italiano, este ambiente verde pode ser percorrido em agradáveis passeios ladeados por cerca de mil árvores e 55 mil plantas.
 Partindo da Place Massena, o corredor vegetal margeia um enorme espelho d’água onde tudo é refletido. Pelo caminho, playgrounds sofisticados para as crianças, bem elaboradas exposições de fotografias que retratam a rotina pacata da Nice do século 19, além de gramados milimetricamente aparados. Amantes de botânica se surpreenderão com uma vasta coleção de todo tipo de plantas exóticas do mundo inteiro, com placas que identificam nome e origem.
 
Vista concreta, obra abstrata 
Espécimes mais exóticas – dessa vez, do mundo das artes – iluminam as galerias do Musée d’Art Moderne et d’Art Contemporain (mamac-nice.org), numa das extremidades do parque. “Uma imagem vale mais que mil palavras”, diz a frase escrita sobre uma obra de arte de Barbara Kruger, de 1992. Retratando um homem que corta um filme munido de tesouras, a criação (uma autorreferência à artista), é ao mesmo tempo maliciosa, provocadora, desafiadora, brincalhona e sinistra. 
 Um desses adjetivos – ou vários outros – aplicam-se a muitas das obras da excelente coleção, da escultura Porta de Damasco (1969), de Frank Stella (composto do tamanho da parede com cinco formas abstratas cruzadas por cinco faixas de cores pastel) ao ambiente octogonal repleto de polígonos irregulares de alumínio branco de Sol LeWitt. Outros artistas contemporâneos provocadores como Ellsworth Kelly, Tom Wesselmann, Donald Judd e Andy Warhol acrescentam suas contribuições de arte pop e minimalismo. E então, do topo do imponente edifício, onde uma memorável vista panorâmica do mar e da cidade o esperam, acene com vigor, despedindo-se de Nice com um caloroso 
au revoir/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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