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Crenças em (e de) um novo ano

Nossas superstições de fim e começo de ano vêm de vários povos

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 04h29

Seu milho já está atrás da porta para o ano que começa hoje? Dizem que a espiga, nua e crua, traz fartura àqueles que a têm pendurada na entrada de casa, amarrada com um laço amarelo ou vermelho, a depender de quem lhe ensinou a tradição. A primeira espiga, contudo, não pode ser comprada; deve ter sido dada como presente. 

Ganhei meu primeiro milho há cinco viradas de ano, quando fui, como costumo ir antes de o ano findar, ao salão de cabeleireira da família de irmãs japonesas que conheço há pelos menos duas décadas. Saí de lá com as unhas das mãos impecáveis, como sempre, e com uma gorducha espiga que, bem, não sabia muito como lidar. 

Nunca fui de superstições, jogos de sorte e azar – apesar de amar um bingo –, simpatias. Tampouco sou religiosa. Com uma espiga em mãos, portanto, a única coisa que penso é no sabor delicioso do milho cozido – o que não deixa de ser fartura. Mas minhas amigas japonesas tinham tido um trabalhão para amarrar os fitilhos amarelos, tudo para presentear as clientes mais queridas e/ou crentes na tradição. Não ousei recusar, obviamente. Afinal, não acredito em bruxas, mas…

Minha avó gosta de comer lentilhas e uvas no dia 31 de dezembro, mas dispensa a roupa branca e a lingerie da cor correspondente ao desejo para o ano novo. Ela também não segue ortodoxamente nenhuma religião, então decide no que acredita e no que não acredita de forma muito pessoal, como muitos de nós fazemos ao longo da vida – seguindo um dogma ou não. De forma pessoal entre aspas, claro. Porque nossas crenças estão relacionadas à nossa cultura popular desde que o mundo é mundo e tem gente habitando nele.

Ando pensando sobre o ano novo ser esse momento em que crenças em forças que escapam à razão humana florescem de forma tão genuína em nossa sociedade. Esta sociedade modernizada, dita civilizada e fiel à ciência, mas que nunca se arrisca a abandonar pequenas e grandes crenças populares, transferidas de geração para geração mesmo sem qualquer comprovação ou explicação plausível para elas.

Minhas amigas japonesas – as mesmas da espiga de milho – contam que, no Japão, limpa-se a casa de cabo a rabo no último dia do ano para espantar os maus espíritos. Amigos colombianos, por sua vez, disseram que, por lá, o negócio é jogar um copo d’água da janela para ver as tristezas do ano corrente irem embora e também pegar uma mala e dar voltas no quarteirão para atrair muitas viagens. 

No Brasil, assimilamos crendices e superstições de diversas partes do mundo. Entre as mais conhecidas estão vestir-se de branco na virada do ano, sinônimo de paz, e pular as sete ondinhas, pedindo força a Iemanjá, duas tradições herdadas das culturas africanas. A própria espiga de milho, amarrada com laço vermelho, também faz parte de rituais da umbanda para a passagem de ano.

A partir de hoje, 365 dias nos aguardam, impacientes por saber o que faremos de cada um deles. Em geral, estamos com as esperanças renovadas, apesar dos pesares (os coletivos e os individuais). A chegada de um novo ano é também a chegada da incógnita futuro. Por mais previsões que possamos fazer, é impossível para qualquer um – inclusive a historiadores – saber exatamente o que virá pela frente neste recorte temporal chamado ano. Nascem do que desconhecemos e daquilo para o que não temos explicação nossas crenças e nossas esperanças. 

Crendices e superstições assumem possibilidades e motivações diversas em cada lugar e em cada época, se transformam e se mesclam, se adaptam à passagem do tempo. São parte da história humana, ajudam a elucidar visões de mundo e, por isso, deveriam ser vistas sem preconceito. 

Digo isso seguindo materialista neste ano que começa. E sem contradições, pendurei minha espiga de milho atrás da porta, joguei um balde d’água da janela e pedi força a Iemanjá. Quero assim me cercar de motivos para acreditar que, em 2019, a esperança possa chegar não apenas a partir de crenças incansavelmente renovadas no fim de cada ano, mas, e sobretudo, da transformação concreta que possa garantir fartura para todos nós. Com ou sem milho com fitinha amarrada.

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