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Crianças deveriam ser banidas da primeira classe e da executiva?

Quem tumultua o embarque deveria voar? Quem é fumante deveria voar?

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2019 | 03h00

Dei de cara com essa pergunta na semana passada enquanto, coincidentemente, esperava no aeroporto de Roma pelo embarque em meu voo de volta a São Paulo. Ela era o título de um artigo em uma revista de viagem.

Por causa da pergunta, e inspirada nas situações vistas ou vividas naquele voo Roma-São Paulo, pensei em outras enquetes para propor aos passageiros de aviões pelo mundo. 

Durante o embarque, um homem, em pé no corredor, e sua mulher, já sentada, debatiam se deveriam ficar com os casacos no colo ou guardá-los no compartimento superior de bagagem. Foram minutos nisso; decidido o impasse dos casacos, passaram ao item laptop (lá no alto ou no bolsão da poltrona?), enquanto eu e uma fila crescente aguardávamos para chegar aos nossos lugares, mais atrás. Passageiros que tumultuam o momento do embarque com sua falta de noção deveriam ser banidos dos voos?

Ainda no tema bagagem, vi outro homem tentando a todo custo acomodar no compartimento superior uma mala rígida que claramente não cabia ali. Gente que usa mal o conceito de mala de mão deveria ser banida dos aviões?

Acomodada em minha poltrona, bateu um cheiro de cachorro molhado. Olhei ao redor, bingo: o vizinho tinha tirado o tênis. As pessoas deveriam aceitar que quase não se fazem mais calçados com material de boa qualidade no mundo. Todo sapato dá chulé; deveríamos banir os passageiros que tiram os seus no voo?

Na fila do banheiro, antes da decolagem, um homem que também esperava sua vez fedia fortemente a cigarro. Há fumódromos de vidro dentro da área de embarque do aeroporto Fiumicino, em Roma, e aquele sujeito certamente tinha dado suas últimas baforadas desesperadas antes de entrar na aeronave. Tive pena de seus vizinhos de poltrona e me perguntei: deveríamos banir fumantes?

Por falar em banheiro de avião: quem demora lá dentro logo depois do jantar, bem naquela hora em que as filas são enormes, deveria ser banido dos aviões?

Brasileiros nos voos de e para a Itália ficam magicamente fluentes em italiano. E dá-lhe “capisce?” na cara dos outros, com dedos das mãos juntos e tudo. E dá-lhe conversa em voz alta sobre a nonna – nada contra a nonna, tudo contra a conversa em voz alta. Vamos banir o italiano macarrônico dos brasileiros?

Ah, sim. O sono dos passageiros durante o voo foi bastante interrompido. Duas vezes pelos comissários que, no alto-falante, perguntavam por médicos a bordo: um paciente cardíaco tinha sofrido um mal-estar. Também teve gente roncando alto. Deveríamos banir cardíacos e roncadores dos voos em geral? E o carrinho de free shop, que eu achava que tivesse sido banido há um bom tempo? Qual a necessidade de tumultuar os corredores apertados vendendo Chanel n.º 5 em pleno avião?

Aliás, aquele avião da Alitalia era velho, o suprassumo do desconforto. Tela pequeníssima para ver filmes, controle remoto que parecia uma relíquia do passado. Poltronas, de tão antiquadas, não tinham tomada, nem entrada USB. Eu teria ficado furiosa se tivesse gastado dinheiro na executiva daquela lata velha. Companhias aéreas que usam aviões velhos sem o mínimo de conforto nas rotas transatlânticas deveriam ser banidas dos ares?

Tudo isso, repito, em um único voo de 12 horas. 

E então, crianças deveriam ser banidas da executiva e da primeira classe?

 

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