Mônica Nobrega/Estadão
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Crianças não são racistas

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Mônica Nobrega, O Estado de S>Paulo

28 Novembro 2017 | 04h55

Mas o mundo todo dia as ensina a serem.

Semana passada eu estava na Holanda, a trabalho. Segundo dado de 2014, a Holanda tem 78,6% de sua população formada por pessoas brancas. Lá, meu cabelo cacheado e volumoso foi em alguns momentos uma espécie de atração – às vezes admirado, outras nem tanto.

Um desses momentos aconteceu num elevador de hotel. Quando entrei, estavam lá duas mulheres e um menino de seus 5 anos. Todos loiros. Uma das mulheres colocou a mão num dos meus cachos (sem pedir autorização, um clássico) e comentou com voz alterada: “Seu cabelo!”. Cara alegre, então acho que quis elogiar. Sorri para a criança e sua mãe, querendo mostrar que não há nada demais nas pessoas que têm “meu cabelo”.

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Crianças não são racistas. Mas, ao me apontar como exótica por ser diferente dela, aquela mulher indiretamente ensinou ao menininho que há um padrão, eu estou fora dele e posso ser invadida e publicamente marcada por isso. 

Em Milão, sentei numa doceria para o café da manhã. Entrou uma família de indianos: pai, mãe, avó, menino pequeno e bebê. Não falavam italiano, falavam mal o inglês. O atendente se irritou em poucos segundos. Praticamente os enxotou dizendo que não conseguiria atendê-los. 

Havia outras crianças na doceria. Crianças não são racistas mas, ao verem tal cena lamentável (contra a qual ninguém fez nada, nem eu), desaprendem o valor do respeito e da tolerância. 

Johannesburgo, África do Sul. Uma galeria de arte expunha os trabalhos de jovens negros alunos de um projeto que ensina fotografia a ex-moradores de rua. Uma das alunas explicava as fotos; enquanto isso, um pai de duas pré-adolescentes fazia perguntas deslocadas – embora cheias de interesse – sobre os cabelos trançados dela.

Pré-adolescentes talvez ainda não tenham aprendido a serem racistas, mas aquele pai estava consolidando o racismo em suas filhas ao deixar claro que pouco importava o que dizia a jovem aluna de fotografia. Importante mesmo era seu penteado “diferente” (para ele, branco). 

Numa praia de ilha em Paraty, havia um casal belga entre os poucos turistas. O filho deles tinha a idade do meu; mesmo balbuciando idiomas distintos, logo se entenderam. Meu menino escuro e cacheado e o pequeno belga de cabelos quase brancos brincaram longamente e almoçaram juntos arroz, feijão e salada comprados na única barraca da praia. Mesmo assim, uma pessoa que passava fez questão de notar em voz alta o quanto era “lindo crianças de cores tão diferentes brincando juntas”.

Dessa forma, um completo estranho ensinou a duas crianças muito pequenas que o fato de suas peles terem cores diferentes era mais notável que a tarde divertida que compartilhavam. 

Não estou dizendo que pessoas brancas são más ou que planejaram ser racistas nas situações que descrevi. Algumas, inclusive, tiveram a genuína intenção de elogiar. Mas, quando a primeira coisa que adultos destacam é a diferença no outro – e não aquilo que o outro diz, faz ou compartilha – estão mostrando às crianças que são elas, as diferenças, que mais importam. 

Quero aproveitar o clima do mês da Consciência Negra para sugerir que, ao levar seus filhos para viajar, você os ensine a perceberem primeiro aquilo que nos faz, a todos, humanamente semelhantes.

Se reler este texto, inclusive, você vai notar como são chatas e cansativas as descrições das características físicas das pessoas. Qual a importância delas, afinal?

Desafio. Natural do Congo, o médico Seyolo Zantoko muda-se com a mulher e os dois filhos para uma comunidade rural na França, para trabalhar no posto de saúde local.

Este é o ponto de partida do filme Bem-vindo a Marly Gomont (2016). O longa francês é uma comédia. Mas tem uma cena precisa, chocante na medida: as brancas crianças francesas, sob influência das atitudes de seus pais e avós, discriminam os filhos negros do médico em seu primeiro dia de aula na escola da vila.

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