Ricardo Freire/AE
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Cruzeiro em Noronha: precisa?

Na semana passada dei um pulinho em Fernando de Noronha. Programei a minha viagem de modo a coincidir com a chegada de um dos navios de cruzeiro que toda semana durante o verão ficam 36 horas ancorados por lá. Cheguei um dia antes, para ver a ilha sem os cruzeiristas e ter mais condições de comparar. Confesso que viajei cheio de ideias preconcebidas; tinha certeza de que Fernando de Noronha viveria um caos durante a passagem do navio.

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2010 | 02h00

Não foi bem assim. Ainda que os 600 passageiros desembarcados dobrem temporariamente a população de turistas na ilha, sua presença é bem menos notada do que eu supunha. A movimentação se restringe à estrada, a alguns mirantes, à Praia do Sueste e a uma área de mergulho na Baía do Sancho, bem longe da areia.

Quem passar o dia aproveitando a Praia do Leão - a melhor da ilha nesta época do ano - ou acompanhando as manobras dos surfistas na Cacimba do Padre e na Conceição talvez nem perceba que está dividindo o paraíso com o dobro de visitantes.

A opinião geral dos ilhéus também é bem mais favorável aos cruzeiros do que eu gostaria de admitir. Com os navios chegam oportunidades de trabalho simultâneas para todos os bugueiros, guias, donos de barco e marinheiros em atividade. Os passeios oferecidos aos passageiros são de meio dia, o que aumenta a produtividade e gera ganhos de escala.

Os únicos que têm seus negócios prejudicados pelos navios são as pousadas mais simples, já que os cruzeiros tendem a absorver o tipo de turista que costumava vir de avião nos pacotes mais baratos (aqueles que combinam dois dias na ilha com cinco no continente).

A favor dos cruzeiros também se deve dizer que seus 600 passageiros não consomem a água e a eletricidade da ilha, e não pressionam ainda mais a demanda por novas edificações.

Mesmo com essas constatações positivas e esses argumentos favoráveis, no entanto, continuo achando os cruzeiros a Fernando de Noronha pouco interessantes tanto para o passageiro quanto para a ilha.

TEMPO CONTADO

Trinta e seis horas em Fernando de Noronha deixarão satisfeito apenas o turista que só está interessado em "ticar" mais um destino da sua lista de lugares ainda não visitados. Você passa quase tanto tempo a bordo de um bugue ou de um jipe quanto na areia ou dentro d"água. Para degustar a ilha de verdade será preciso voltar.

A versão de meio turno do "ilha tour" é tão enxuta que não é permitido aos passageiros sequer descer à Praia do Leão, a mais cristalina da ilha durante o verão. "A parada para banho é no Sueste", responderão os guias a quem pedir para ficar. E esta se justifica pela possibilidade de nadar com tartarugas - mas enquanto esperam a sua vez, os turistas precisam se contentar com uma praia de águas turvas e padrão bem inferior ao que Noronha oferece de melhor. Ali ao lado, a Praia da Atalaia - aquário natural da ilha - permanece fechada durante a estada do navio, por não comportar tantos visitantes.

A época em que os cruzeiros operam é a menos indicada do ano para chegar ou andar de barco pela ilha. O mar está revolto - é quando os surfistas vêm aproveitar o swell. De vez em quando um navio simplesmente não consegue desembarcar seus passageiros - nesta temporada, aconteceu em dezembro. Os passeios de barco podem ser sofridos e, com três embarcações chegando ao mesmo tempo, o ponto de mergulho da Praia do Sancho vive seus momentos de Maragogi.

À noite, quando ocorrem as ótimas palestras sobre ecologia e vida marinha na sede do Projeto Tamar, os passageiros estão todos de volta ao navio, para aproveitar os restaurantes e bares do sistema all inclusive.

BUGUES E JIPES

O maior impacto dos cruzeiros é conceitual. O navio ancorado ao longe confirma a opção da administração da ilha pelo turismo de massa. O cruzeiro leva ao paraíso quem não quer passar pelo purgatório das pousadinhas domiciliares, nem comprar a salvação da hospedagem de luxo.

Em terra firme pratica-se um ecoturismo sem trilhas ou bicicletas, que faz uso intenso de uma frota de bugues e jipões ecologicamente incorretos. Muitos dos visitantes - vindos de navio ou de avião - saem da ilha com a impressão de que ecoturismo é isso: subir num bugue e comer poeira.

Só aprende a conservar a natureza quem tem contato intenso e prolongado com ela. Na minha opinião, Fernando de Noronha não deveria estimular a vinda de quem só vai passar correndo pela ilha.

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