Cuidado com os guias

Nosso irrefreável viajante, enfim, voltou a dar sinal de vida: "Quero solicitar minhas mais profundas escusas aos grandes (e desconhecidos) amigos do Estadão a quem, mais uma vez, deixei de visitar por motivos alheios à minha vontade. Até Trashie, minha raposa das estepes siberianas, mostra-se envergonhada pelo mesmo motivo e anda com seus olhos rasos d'água. Prometo, mais uma vez, que em breve estarei com vocês!".

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2014 | 02h06

Tal foi o comentário de nosso correspondente britânico, que não mereceria nosso perdão, não fosse o fato de ser considerado um fofo por nossa equipe. Mr. Miles também afirmou que achou brilhante a nossa Copa, exceto por seus tenebrosos resultados. A seguir, a pergunta da semana:

Querido mr. Miles: sou dessas pessoas que gostam de viajar em grupos organizados e, em minha opinião, os guias turísticos fazem toda a diferença. O que o senhor acha deles?

Egle Conceição Mateus, por e-mail

"Well, my dear: concordo que os guias, comandantes de excursões turísticas, fazem toda a diferença em uma viagem. O poder que a eles é conferido, in my opinion, chega a ser atemorizador. É claro que não me refiro aos guias ciosos, que realmente conhecem seu ofício. Esses, by the way, costumam ser mestres exemplares e suas narrativas, com forte embasamento, são indispensáveis para que o viajante entenda a atração que está visitando, o contexto histórico em que ela surgiu, as vidas que ela comemora ou as mortes que pranteia. Minha amiga Covadonga, for instance, é uma solerte cicerone espanhola e uma enciclopédia viva da história ibérica.

Durante os meses em que não está no assento dianteiro do ônibus distribuindo informações de microfone em punho, dedica-se a estudar novas regiões, submete-se a exames rigorosos e amplia seus conhecimentos. Jamais aceita conduzir um grupo a lugares que não conhece a fundo, para evitar informações superficiais ou temerárias.

Unfortunately, Egle, não se pode atribuir as qualidades de Covadonga a todos os guias. Pelo que pude perceber durante minhas jornadas pelo mundo, há vários tipos de guias em ação. Os criativos são, perhaps, os mais perigosos. Eles conhecem a matéria - vê-se logo. No entanto, cansam de repetir sempre a mesma história (porque, afinal, ela não muda) e começam a adicionar cacos.

É assim que, suddenly, uma catedral qualquer torna-se 'a mais esplêndida obra de arquitetura gótica do século 15' e o obscuro cardeal enterrado em uma de suas criptas passa a ser 'o amante secreto da rainha fulana de tal, castrado e decapitado em uma emboscada atribuída a ciganos, mas que, de fato, foi ordenada pelo próprio soberano'. A viagem torna-se mais excitante, isn't it? Mas é tudo apenas diversão de um guia entediado.

Existem também os patriotas. Eu mesmo fiz um tour pela República Checa sob a liderança da inesquecível Nádia. Todos os números que ela passava aos incautos viajantes - o tamanho da ponte, a altura do campanário, a largura do rio, a quantidade de habitantes - eram exatamente 30% maiores do que a realidade. Can you believe me?

Existem, também, os francamente embusteiros. São uma espécie difícil de distinguir unless you have previous information. Em geral falam muito, mas nada faz sentido. As datas estão sempre erradas. Os nomes ligados aos castelos, às igrejas e fortalezas que mostram soam verossímeis, mas são completa bobagem. Quando confrontados por algum turista mais atento, sempre têm uma resposta evasiva na ponta da língua. They are really dangerous!

É por essa razão, darling, que eu chego a ser cansativo ao sugerir que jamais se deve viajar sem literatura confiável ao seu lado. Melhor ainda é quando o viajante estuda antes o destino para o qual se encaminha. Se o guia for ruim, você estará protegida. Se for bom, however, sempre haverá algo mais a aprender com ele. Do you know what I mean?"

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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