Thiago Momm
Thiago Momm

Curaçau: para curtir a típica fórmula caribenha

O casario em tons de arco-íris combinado ao mar azul-degradê são a marca da ilha, que marca refúgios de calmaria à efervescência de seus bares

Thiago Momm, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

15 Junho 2015 | 18h51

Tente considerar Curaçau um chavão caribenho de animação artificial, e um distrito alternativo ou um festival internacional de jazz provarão o contrário. Tente enxergá-la como destino rústico, e shoppings, cassinos, resorts, cruzeiros e festas eletrônicas à beira-mar diluirão a imagem. Para uma aproximação melhor, considere tudo isso mais séculos de multiculturalismo, patrimônios da Unesco, ótimos museus, casario colorido, 65 pontos de mergulho no mar azul cerúleo. Além de distinções musicais e culinárias, paisagens dramáticas e atrações como um superaquário com mais de 400 espécies.

O sol frontal perde força e a noite vai se decalcando no céu em Jan Thiel, praia que é uma nova referência de happy hour e movimentação noturna na ilha. Estrangeiros, a maioria holandeses, relaxam diante da piscina salgada de borda infinita do Papagayo Beach Club e interagem na areia do vizinho Zanzibar. Drinques podem passar de R$ 30 e poucos nativos se sentem convidados. A mistura na ilha, aliás, é menos comum do que se poderia esperar – diversas praias têm público bastante demarcado.

Os frequentadores se tornam múltiplos a 15 minutos de carro dali, na Sea Aquarium, uma praia onde clubes integrados à areia se somam ao complexo Curaçao Beach Boulevard, com área esportiva, lojas, bares, cafés, restaurantes. Um dos clubes é o Mambo, onde as noites têm areia macia, palmeiras, cordões de luzes e multidões que se acotovelam em balcões e se liquidificam a céu aberto com música intensa ao vivo. 

Novo ritmo. A madrugada ganha sons e tons diferentes menos de cinco quilômetros ao norte, em Pietermaai, um distrito do século 18 que estava decadente no final dos anos 1990 e vem sendo revitalizado desde então. O nome local homenageia o navegador holandês Pieter de Meij, que em 1674 viajou do Brasil a Curaçau. 

O distrito é anexo ao centro histórico de Willemstad, a capital. Pietermaai emula o French Quarter de Nova Orleans, o Quartier Latin parisiense ou o Village nova-iorquino. Há ruas esquecidas e encarquilhadas remetendo aos piores tempos, mas a vivacidade da mudança é evidente. 

O Rock Beach é um velho contêiner de navio transformado no bar de um espaço com reggae, rock, salsa e kizomba. O 27 Bar & Terrace, disposto a ser genuinamente roqueiro, capricha na curadoria das atrações e homenageia, em painéis, as lendas mortas aos 27 (Amy Winehouse, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain). O Miles Jazz Café põe vinis para rodar e tem apresentações aos sábados. No Mundo Bizarro, cacarecos de brechó são ladeados por paredes cor de vinho e amarelo-banana suavizado. O apelo “caos harmônico” é melhor ali que na maioria dos bares do gênero. Depois de sentar sob os lentos ventiladores de teto, dê atenção aos drinques do cardápio.

A lista se estende. Pietermaai, como anuncia um guia de bolso do distrito, já está com dez bares, 14 restaurantes e 49 empresas, em parte instalados em reformadas construções coloniais (o site pietermaaidistrict.com dá uma ideia do que se trata o local). Nativos, turistas e estudantes ali são um microcosmo de Curaçau, uma ilha onde a população, embora mal ultrapasse 140 mil habitantes, é composta por mais de 50 nacionalidades. 

Outro destaque recente é o Curaçao North Sea Jazz Festival, realizado desde 2010 (sua matriz, na Holanda, começou em 1976), atraindo número crescente de visitantes à ilha a cada ano. Ao jazz se misturam R&B e música pop, latina e africana. Nomes como George Benson, Stevie Wonder, Bruno Mars e Alicia Keys já compareceram. O próximo será 3, 4 e 5 de setembro, com um line-up que vai de nomes populares (Enrique Iglesias, John Legend, um duo de Usher com Emeli Sandé) a outros cultuados no meio jazzístico (Gregory Porter, Cassandra Wilson) ou clássicos (Lionel Richie, Isley Brothers). Outros festivais deste ano serão o Amnesia, que também aposta em um caldeirão de gêneros, e o Smash the House, focado em música eletrônica. 

Também há cinco anos, Curaçau mudava de status político, se tornando, no dia 10-10-2010, um país autônomo dentro do Reino dos Países Baixos. Dois terços da população votaram por esse status. Ainda que não por relação direta, o total de visitantes chegou a 450 mil em 2014, 32% a mais do que em 2010. Diversas rotas aéreas passaram a incluir a ilha. Em paralelo, a passagem de cruzeiristas por lá não para de crescer. Mas, ao menos por enquanto, um certo ar rústico ainda se mantém.

PÉS NA AREIA PARA O TEMPO ANDAR DEVAGAR

O vento eterno em Curaçau reconfigura o céu tantas vezes por dia que o conceito de tempo aberto ou nublado é pouco aplicável. Quando a tarde promete uma infinitude azul, agrupamentos de imensas nuvens bem desenhadas surgem no horizonte; quando a manhã começa cinza, vá para a praia mesmo assim porque haverá muitos intervalos com sol. O que muda menos é a temperatura, próxima de 27 graus durante todo o ano. 

Perambular pelas praias de Curaçau é vivenciar o que disse uma vez, para a revista literária Paris Review, o poeta caribenho de Santa Lúcia e prêmio Nobel Derek Walcott: “Há um senso contínuo de movimento no Caribe – causado pela sensação de se estar quase flutuando na água, e não parado. O sentido que se tem do tempo é maior – algo muito diferente nas ilhas em relação às cidades”. Os caribenhos, ele garante, não vivem muito pelo relógio, e “se você tem de estar em um lugar onde você cria o seu próprio tempo, o que aprende, eu acho, é a paciência, a tolerância, e como se tornar um artesão de si mesmo em vez de ser um artista”.

Curaçau tem quase 40 praias. Abaixo, sugerimos algumas que mais convidam à criação do próprio tempo dentro da estada na ilha. 

Sea Aquarium (Mambo  

Beach) e Jan Thiel

De 7 a 13 km de Willemstad

No sentido sul para quem parte de Willemstad, são as praias com estrutura mais elaborada – pense em bulevares de compras e resorts à beira-mar. Jan Thiel, familiar, fica na área residencial mais desejada da ilha. Sea Aquarium, por sua vez, é um conhecido ponto turístico. 

Kokomo

12 km de Willemstad

Realizada ali mensalmente, a pirotécnica festa da lua cheia (kokomo-beach.com) chega a reunir 3 mil almas, vai até as 5 da manhã e se orgulha de obrigar os presentes a arrastarem suas ressacas pelo sábado afora. Outro destaque é o happy hour aos domingos, mas essa belíssima micropraia reúne, a maior parte do tempo, calmos leitores à beira-mar.

Porto Mari

25 km de Willemstad

Areia suave, plataforma flutuante para descanso no mar, chuveiros, restaurante. Um duplo recife de corais atrai mergulhadores com cilindro ou snorkel. Nada nessa vida mansa toda faz lembrar que a praia foi cenário do cruel desembarque holandês para pôr fim à histórica tentativa de liberdade dos escravos, em 1795. 

Cas Abao

29 km de Willemstad

Talvez a mais bem acabada ideia de Caribe edênico na ilha, pela intensidade do mar, o resguardo garantido pelos morros, os gazebos, a vegetação, os serviços. São Paulo fica a 4.674 quilômetros dali, ironiza a placa multidirecional de madeira próxima a um quiosque. O acesso à praia é 

pago: 12,50 florins (pouco mais de R$ 20).

Grote Knip (Kenepa), Lagun e Jeremy

De 37 a 40 km de Willemstad

Na ponta noroeste de Curaçau, 12 praias surgem em uma sequência de apenas 15 quilômetros. As três aqui citadas se sobressaem. A primeira convida a mergulhos e fotos ímpares perto do costão esquerdo. A segunda, talvez a mais bonita da região, é uma enseada resguardada por costões rochosos um pouco mais altos. Já a terceira tem uma faixa de areia um pouco maior, mas nenhum serviço, o que evita excesso de público. 

Klein Curaçau

A duas horas de Curaçau

Um descascado farol antigo da cor de um flamingo é o único habitante desta pequena ilha (klein é pequeno em papiamento) duas horas distante de barco de Curaçau. Nas últimas décadas do século 19, um engenheiro de minas inglês explorou fosfato e engenheiros navais alemães tentaram, sem sucesso, se incrustar por lá. O passeio, que muitos aproveitam mergulhando, lagarteando e enchendo o cartão de memória da câmera, custa em torno de  

US$ 100. Mermaid Boat, Miss Ann Trip e Bounty Adventures são as empresas que levam até lá, com saídas principalmente nos fins de semana.

SAIBA MAIS

Como ir: de São Paulo a Curaçau, a Copa tem voos desde US$ 1 mil ida e volta, com conexão no Panamá. Estique para Aruba e Bonaire com a Insel Air, desde US$ 112

 

Melhor época: fora da rota de furacões, a ilha pode ser visitada o ano todo. Mais:curacao.com

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