Curdistão, o lado light do Iraque

Região semi-autônoma, fora da zona de conflito, quer ser 'mini-Dubai' e busca turistas até nos Estados Unidos

Lionel Beehner, The New York Times,

11 Novembro 2008 | 03h38

Mulheres com véus floridos chegaram dispostas a garantir um bom lugar no Parque Sami Rahman, área verde triangular em Erbil, no norte do Iraque. Homens mais velhos rezavam em seus tapetes, enquanto crianças disputavam o playground e casais andavam sem pressa por ali. Exceto pelo barulho das obras de um hotel de luxo, o parque estava um oásis de calma. Mas esse trecho nem foi sempre tão pacífico. A bem cuidada área verde antes era um centro de detenção do regime de Saddam Hussein, onde centenas de curdos foram presos e executados na década de 1980. Pode parecer estranho que, agora, o parque esteja sendo promovido como atração turística local. Enquanto boa parte do Iraque continua tendo a guerra como foco, a semi-autônoma região do Curdistão vive uma época de relativa segurança e prosperidade, graças a um acordo determinado pelos Estado Unidos em 1991. Depois da primeira Guerra do Golfo, a região deixou de ser zona de conflito. O resultado é que, em vez de consertar campos de petróleo ou enterrar as vítimas da batalha, os curdos iraquianos constroem hotéis e parques na tentativa de atrair turistas. Prova do investimento é a criação do Ministério do Turismo, com mais de 400 funcionários, e de um site (www.tourismkurdistan.com) com fotos e informações sobre a região. Sem falar que os curdos resolveram fazer propaganda em canais de TV dos Estados Unidos, utilizando o slogan "O Outro Iraque". O que se vê na televisão é imagens de fábricas de alta tecnologia e criancinhas saudando soldados americanos. Nada, no entanto, consegue promover melhor o Curdistão que sua história milenar e suas paisagens incríveis. Apesar de a maioria dos tesouros culturais iraquianos estar no sul - perigosíssimo para visitar -, o norte não desaponta. Quem gosta de história verá ruínas de monastérios cristãos e de mesquitas otomanas. No centro de Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, existem resquícios de muralhas de mais de 6 mil anos. Trata-se de uma das mais antigas cidades do mundo habitadas de forma contínua. Os aventureiros, por sua vez, encontrarão muito o que fazer e ver. Caso da cachoeira em Gali Ali Bag, imortalizada na nota de 5 mil dinares e um espetáculo para admirar e se lembrar para sempre. Amadiya, uma antiga fortaleza no alto do morro, oferece pistas de povoados cristãos e judaicos formados muitos milênios atrás. E os picos nevados das majestosas Montanhas Zagros permitem que os alpinistas tenham maravilhosas panorâmicas da Turquia, do Irã e do Iraque. Como chegar: a Austrian Airlines (www.aua.com) voa para Erbil a partir de Viena. Duas empresas vendem pacotes para lá: Distant Horizons (www.distant-horizons.com), da Califórnia, e Terre Entiere (www.terreentiere.com), de Paris INSPIRAÇÃO Não totalmente sem razão os guias de turismo locais chamam o Curdistão iraquiano de a Suíça do Oriente Médio. Mas os curdos têm um modelo diferente em mente: Dubai. Por causa dos petrodólares, uma floresta de cimento começa a ser erguida em Erbil, com o claro objetivo de transformar a cidade de 2,8 milhões de habitantes num pólo de compras e lazer. Em alguns momentos, a busca pelo desenvolvimento beira o surreal. Aos pés da antiga cidadela está o Nishtiman Shopping Mall, empreendimento que deve custar US$ 1 bilhão e ter 6 mil lojas. Impossível não pensar no contraste entre tal complexo e seus vizinhos, casas com paredes barro e souks, os mercados tradicionais. Para acomodar os novos ricos locais, bairros com nomes aspiracionais: Cidade dos Sonhos, Vila Inglesa e Vila Americana. Trilhar o caminho de Dubai não parece tão difícil. A região já conta com resorts de golfe e, em 2009, deve inaugurar seu aeroporto internacional, que custou US$ 300 milhões. Há apenas um problema. Eles ainda estão no Iraque. As condições de segurança, claro, preocupam. Afinal, a segunda maior cidade do Curdistão iraquiano, Sulaimaniya, foi alvo de uma atentado a bomba no mês passado, matando um guarda. E os curdos - iraquianos e turcos - têm histórico recente de conflitos com os turcos. O Departamento de Estado Americano não recomenda a viagem. França e Inglaterra, no entanto, já relaxaram as restrições para turistas que queiram conhecer a região. Turquia nos passos de Abraão O Curdistão turco também se esforça para ganhar visibilidade. No ano passado, foi lançada a rota Caminhos de Abraão, uma iniciativa para pacificar a região por meio do turismo. No caminho, atrações como Göbekli Tepe, uma das localizações possíveis para o bíblico Jardim do Éden.

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