Da semelhança entre viajar e nascer

Foi uma rápida passagem, mas alguns leitores deste caderno confirmaram que o homem mais viajado do mundo esteve em São Paulo, numa visita-surpresa a um velho amigo que completava seu cinquentenário. Como só pode acontecer nessas ocasiões especiais, os que o viram de perto não portavam máquinas fotográficas e o único amigo da coluna que conseguiu registrá-lo em seu telefone celular produziu uma imagem de tão baixa definição que é impossível dizer se o que se vê é mr. Miles ou um abajur Lalique. Contam os circunstantes que o intrépido viajante esteve num bar da Vila Olímpia, saudou seu old fellow com um discurso repleto de lembranças, sorveu uma dose dupla de uísque e partiu, deixando atônitos e boquiabertos os que duvidavam de sua existência.

O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2012 | 03h09

Miles confirma-nos, em e-mail, que de São Paulo seguiu para o Chile. Esteve na propriedade rural de Don Acuña na localidade de Laguna Verde onde, confessa, amarrou um bode com vinho em caixas Tetra Pak. Don Acuña é um homem de mil instrumentos com quem mr. Miles já esteve nos mais remotos lugares e nas mais constrangedoras situações. "Ele é tão conhecido em toda parte que a simples menção de seu nome já me livrou de awful situations. Houve casos, contudo, em que, ao relatar que privava da amizade de Don Acuña, tive armas apontadas para a minha cabeça - e jamais descobri why it happened."

Dos domínios desse personagem chileno, mr. Miles responde aos leitores:

Mr. Miles, quais são as coisas que o senhor não deixa de fazer quando visita um lugar pela primeira vez? Arthur B. de Oliveira, Mairiporã,

São Paulo

"Well, my friend Arthur, eis uma excelente pergunta. Levei alguns anos para aprender porque, no começo, era um viajante afobado, ávido por conhecer o máximo possível in a short time. Um dia, ouvindo considerações sobre o tempo de um criador de cavalos na Mongólia extremamente sábio, comecei a entender - e venho me esforçando para aprimorar essa técnica - que só se obtém intensidade no conhecimento com vagar e introspecção. De certa forma, my friend, conhecer um lugar novo é como nascer.

O viajante que encontra o desconhecido começa vendo penumbras e ouvindo sons que não distingue. Estranha o que lhe dão de comer e alterna momentos em que se sente profundamente desamparado com instantes em que descobre o carinho dos que o cercam.

Yes, Arthur: it's like to be born again. Por isso, não adianta queimar etapas. Para conhecer um lugar novo é preciso ter o tempo, o interesse e a paz desarmada de um recém-nascido. Descobrir cada coisa a seu tempo. Deixar que os prédios, os rios e as pessoas ganhem forma. Permitir que as palavras, os gestos e as intenções ganhem sentido. É, in fact, um trabalho para a vida inteira e é por isso que insisto que, por mais que eu viaje, nunca vou chegar a conhecer - no sentido amplo da palavra - lugar algum.

Mas voltando à sua pergunta, dear Arthur, confesso que quando eu visito um lugar pela primeira vez, eu não deixo, jamais, de me encantar. Como quem nasce. Sem encantamento, não existem descobertas ou espantos. Não há surpresas ou decepções. Em poucas palavras: não há sequer uma viagem. Did you get me?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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