Angel Velez/Divulgação
Angel Velez/Divulgação

De barco, uma experiência única ao lado das baleias

É o tipo da coisa que a gente nunca esquece. Era uma manhã azul de dezembro e, embora o sol imperasse absoluto sobre nós, fazia frio. Estávamos em Puerto Pirámides, de onde saem os barcos para observar baleias, a picanha na chapa do turismo naquelas bandas. Era a nossa vez e, entre uma brincadeira e outra, tínhamos a sensação de que algo grandioso estava prestes a acontecer.

FÁBIO VENDRAME , ESPECIAL PARA O ESTADO , PUERTO PIRÁMIDES, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h14

Havia coisa de 20 turistas na embarcação, gente de diferentes nacionalidades, todos ansiosos para se enternecer com aquelas criaturas gigantescas e graciosas. O guia dava as instruções, faça isso, não faça aquilo. No fim, confessou que algo lhe dizia que aquela manhã prometia uma experiência memorável. Não sei ao certo o que o levava a essa convicção, mas seu semblante trazia a confiança dos vencedores estampada.

O barco zarpou por volta das 10 horas e começou a se afastar da costa. Não deu nem meia hora e o comandante soltou o aviso: "Baleia à vista! Mamãe e filhote a estibordo!". Todo mundo se entreolhou e seguiu para a proa. Ninguém parecia saber ao certo se estibordo era à direita ou à esquerda. Então, cada um se posicionou onde achava melhor. Dei sorte. Estibordo é o lado direito de quem olha da popa para a proa, e lá estava eu.

Um esguicho poderoso jorrou da superfície. Logo pudemos ver o filhote, projetando seu corpanzil para fora d'água e voltando a submergir. Parecia desfrutar enquanto nadava calmamente, acompanhando o ritmo do barco. Suspiros e "ooooohhssss".Cliques e mais cliques. Nem me dei conta de como o mar começara a ficar agitado. O coração estava na boca.

Enquanto a cena se repetia, fiquei à espera de ver a mãe. Se o filhote já parecia gigante, imagine a versão adulta! A baleia-franca alcança de 14 a 18 metros de comprimento e pesa até 40 toneladas - o filhote nasce com cerca de 5 metros e 4 toneladas. Vivem por volta de 60 anos.

Foi quando, de repente, um colega do grupo me tocou o ombro: "Ela está bem debaixo do barco." Paralisei. Ele se agachou e tocou a cabeça cascuda da gigante. "Cara, que incrível! Faz um carinho nela também!" Isso pode? Não, não pode. Mas, cá entre nós, ninguém perderia uma chance dessas. Nem eu. Agachei, estiquei o braço e projetei o corpo para tocá-la. Levei um susto quando ela soltou um jato. Senti respingar no meu rosto. Meus óculos ficaram molhados. O que era aquilo?

Então me dei conta de que ela posicionava a cabeça sob o casco e levantava o barco com um movimento suave, como se quisesse se exibir para o filho. Ou, talvez, como se nos dissesse: "É, meus amigos, se eu quisesse jogaria todos vocês ao mar".

Aos poucos, já satisfeita com seu show, a mamãe soltou mais um esguicho e deslizou seu corpo interminável para longe da embarcação. O filhote foi atrás e, sem cerimônias, os dois sumiram de nossa vista. Uau.

Suspensão no Brasil. De julho a novembro também é possível observar as francas em Garopaba, Imbituba e Laguna, em Santa Catarina, para onde elas migram durante a temporada de reprodução. Este ano, contudo, a Vara da Justiça Federal de Laguna suspendeu o turismo de observação de baleias embarcado. O governo catarinense e as empresas envolvidas na atividade já estão recorrendo da decisão.

A ação civil pública foi movida pelo Ministério Público Federal a partir de denúncia do Instituto Sea Shepherd Brasil de que não há estudos suficientes sobre o impacto das atividades nos animais nessa região. Os passeios, realizados na Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, são regulamentados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A abertura da temporada ocorre oficialmente em 13 de julho. Apesar da incerteza quanto aos passeios de barco, ainda é possível avistar as gigantes da terra, a poucos metros da arrebentação - há tours guiados por biólogos. Agências como Vida, Sol e Mar (turismovsm@hotmail.com; 48-3254-4199 ) e Base Cangulo (contato@basecangulo.com.br; 48-9103-7266) cobram cerca de R$ 60 pelo passeio terrestre. Antes de agendar a viagem, vale consultar os portais do ICMBio (www.icmbio.gov.br) e do Instituto Baleia-Franca (baleiafranca.org.br) e checar se a proibição foi revogada. / COLABOROU FELIPE MORTARA

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