De mulheres e malas

Difícil dizer se a pergunta da semana é de autoria do escritor Domingos Pellegrini, premiado autor paranaense, ou de algum homônimo seu. O fato é que ela veio do Paraná e parece muito inspirada. A seguir, a resposta de nosso correspondente.

O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2013 | 02h12

Mr. Miles: minha questão para seus comments é a seguinte. Em viagens com minha mulher, lamento que ela leve mala enorme, enquanto levo pequena mochila, assim me livrando não só de carregar peso como de esperar em esteira de bagagem, além de  não me arriscar com extravios e roubos tão comuns em aeroportos.  Ela, porém, reclama que acabo sempre vestindo as mesmas poucas roupas, que mando lavar nos hotéis. Fico tão visualmente repetitivo, diz ela, que as viagens perdem o encanto! Seria o caso de trocar de mulher ou deixar a mulher em casa? Grato!

Domingos Pellegrini, por e-mail

"Well, dear Domingos (can I call you Sundays?), sua questão é tão pertinente quanto divertida. Tenho certeza de que muitos de meus leitores vão se identificar com o seu problema, especialmente no que tange às volumosas bagagens de suas companheiras. Há, unfortunately, casos ainda piores que o das damas que levam parte expressiva de seus closets para conhecer o mundo, ainda que, aparentemente, eles não estejam interessados em tirar férias.

Refiro-me, of course, àquelas senhoras que, como minha querida amiga Ana de Luna, carregam, dentro de suas malas colossais, outras sacolas e mochilas dobráveis que vão multiplicar o transtorno na viagem de volta.

A sua pequena mochila, dear Sundays, é, sem sombra de dúvidas, muito mais prática. Além de poder ir consigo a bordo do avião, ela é, in fact, muito pouco propensa a extravios, exceto os originários de seu próprio esquecimento. Veja o caso de my old friend Ronny Hein, jornalista e viajante, que, após 15 dias de proveitosa expedição pela Tailândia, esqueceu seu bloco de anotações em um tuc-tuc de Bangcoc. O pobre escriba só levou 30 segundos para perceber o que fizera. However, quando voltou o olhar para a praça em busca do veículo que o trouxera, avistou cerca de 150 triciclos iguaizinhos partindo, enfurecidos, para destinos diversos.

Sua cautela, I presume, é maior do que a desse meu velho amigo. E seu asseio - também suponho - deve ser notavelmente melhor do que o de vários franceses que conheço. Entre eles, o bom Serge Beck, andarilho emérito que leva em sua mochila de viagem algumas barrinhas de cereal, um par de tênis reserva e uma capa de chuva. Nem sinal de cuecas, meias, shorts e camisetas, que Serge só costuma lavar quando os insetos (até eles) fogem à sua aproximação.

Quanto a ficar visualmente repetitivo, esse, I'm afraid, é um problema que concerne ao casal. Talvez você possa utilizar, a seu favor, o argumento de que este modesto viajante que vos fala é, indeed, um modelo de monotonia estética. Sempre vestindo os três mesmos ternos que mandei fazer em Savile Row (os quais mando lavar, como você) e meu inseparável bowler hat, eu deveria passar desapercebido nas multidões. However, sou muito reconhecido como cidadão inglês, sobretudo na Ásia e na África, onde as pessoas preferem túnicas. Besides, não tenho nada a reclamar de meu sucesso entre as mulheres. Talvez a sua esteja com ciúmes!

Quanto ao final de sua questão, 'trocar de mulher ou deixá-la em casa?', sinto-me suficientemente à vontade para propor que, antes de mais nada, você encontre alguma de seu gosto viajando apenas com uma mochilinha. Se esse milagre ocorrer, vá em frente! Caso contrário, peça um espaço na mala de sua mulher para evitar o que ela chama de repetição visual. Sou capaz de apostar que ela jamais voltará ao assunto. Don't you agree?."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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