De onde vem a coragem para morar fora?

Sei que não vai rolar bolsa de estudos ou de pesquisa ou de sei lá o quê

Gilberto Amêndola, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2018 | 01h00

Na minha melhor versão, aos 20 anos, eu toparia entregar pizza ou lavar pratos. 

Agora, meu afã de ir embora é embargado por uma espécie de “senta lá, Cláudia”.

Um “calma, aí” ou um “segura a onda” que podem ser traduzidos como “responsabilidade” ou pura “covardia”.

Me faltam calos nas mãos, admito.

Fosse só pelo gosto, a mala já estava arrumada.

Mas, na minha cabeça, um cabo de guerra vem sendo travado entre prós e contras: “Vai! Não vai! Renova o passaporte! Aquiete-se! Jogue tudo para o alto! Deixe de mimimi!”. 

Eu sei, aos 40 e poucos, isso soa meio ridículo, meio filme ruim na Sessão da Tarde. Ninguém aguenta mais ler sobre a crise de meia-idade de um sujeito de classe média como eu.

Essa crise só cola se você tem a cara do George Clooney. Não é o caso – dizem. Eu deveria ter vergonha. E tenho.

Mas, bora lá, eu também quero fugir. Eu também quero me encontrar. Eu também quero me perder. Eu também quero uma vizinhança nova. Eu também quero me apaixonar por uma estranha que fale uma língua diferente da minha. Eu também estou passando por um revisionismo espiritual e profissional. Eu também...

Dito isso, chegamos ao ponto em que eu tenho 42 anos e acabo de entrar no meu inferno astral – rumo aos 43. Comecei a descida dessa inevitável montanha-russa que chamamos, com algum otimismo e inocência, de vida. 

Sendo assim, morar fora precisa ser um projeto mais racional do que emocional. Primeiro, o básico, não são férias. 

Não são dias de museu, restaurante e bar. São dias de acordar cedo, pegar metrô lotado e almoçar rapidinho. 

Eu vou precisar arrumar um lugar para morar. Não pode ser muito caro. Vai ser apertado. Não vai ter área gourmet. Nem garagem. Nem ponto de bicicleta de banco na porta de casa. Vai ter vizinhança barulhenta. Vai ter rato.

Eu vou precisar arrumar um emprego. Na minha profissão, na real, acho difícil. Vou ter que me “virar nos 30”. Fazer o quê? Sou um desastre em tudo que diz respeito a habilidades físicas ou manuais. Pensei em dog walker. Sim, daria um bom passeador de cachorros. Tive uma ótima experiência como dono do Pitoco. Ok, era um só. Era mansinho. Posso ser um dog walker de cachorro pequeno. Um dog walker que não ande muito. Um dog walker que fique fazendo carinho no sofá. Um dog walker parado. 

Sei que não vai rolar bolsa de estudos ou de pesquisa ou de sei lá o quê. Também não tem vaga de jornalista correspondente dando sopa em nenhum lugar do mundo. Não tenho coordenação para malabarista de farol. Vou ter que colocar essas mãos macias à serviço do labor suarento.

Se, por um lado, seria osso; por outro, seria a possibilidade de uma virada no segundo tempo da vida (começo do segundo tempo, se nada der muito errado), uma chance de incorporar um novo eu ao velho cacareco. No mais, todo trabalho é digno (nota: procurar vaga de gogo boy barrigudinho).

Eu também poderia inventar uma outra personalidade, vestir um terno diferente, usar chapéu de caubói, calça vermelha e bigode.

Podia aprender a tocar violão, falar mandarim e ter um filho.

É isso, a vontade de morar fora precisa vir acompanhada de mais coragem do que eu tenho hoje. Coragem que não se encontra na farmácia ou na feira. Coragem que não se adquire por imitação. Coragem que não está dando bobeira na fila do check-in.

Mas, coragem, às vezes, a gente tira da cartola.  Coragem a gente tira da falta de ar. Coragem a gente tira da falta de estômago.

Coragem a gente tira do medo que dá de ficar quadrado. Coragem a gente tira do medo de esperar a tempestade que se aproxima tendo apenas uma sombrinha relutante e tímida para se proteger. Coragem.

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