De passeio religioso a polo gastronômico

O bartender do Misk (Rua Al-Bishara), novo restaurante e espaço de shows em Nazaré, navegava apressadamente por vídeos do YouTube. Sua pesquisa era projetada em uma grande tela, recém-instalada no prédio de pedras brancas da era otomana. Até encontrar um remix dançante de uma música árabe e acordes frenéticos preencheram o salão.

RACHEL B. DOYLE / NAZARÉ , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2012 | 03h08

O estiloso restaurante, aberto na maior cidade árabe de Israel em novembro, é merecidamente popular entre os jovens locais. Nos últimos anos, eles têm visto a cena gastronômica de sua cidade, conhecida por ter sido o berço de Jesus, evoluir do falafel para criativas fusões de receitas árabes. Exatamente como ocorre no Misk, onde clássicos da culinária palestina ganham releituras.

No meio da Cidade Velha de Nazaré são servidos salmão com folhas de hortelã, tahine preto com quiabo, drinques complicados e doses de tequila. Esta é uma mudança significativa para a cidade de 73 mil habitantes, habitada por um mix de árabes muçulmanos e cristãos. Até poucos anos atrás, álcool raramente era visto nos cardápios e mulheres quase não saíam de casa à noite. A emergente cena gastronômica está ajudando a mudar isso.

No El Babour (no Mercado da Cidade Velha), um rústico edifício de pedras perto do Poço de Santa Maria, empregados operam multicoloridas peneiras automáticas em um pátio aberto que cheira a alcaravia, enquanto sementes secam ao sol. Saem dali ervas e pimentas usadas nas receitas árabes contemporâneas dos restaurantes locais. Caso do Sudfeh (Rota dos Pelegrinos, 6.083; sudfeh.com), bistrô instalado em um belo seminário russo restaurado do século 19.

O mais celebrado restaurante árabe de Nazaré, Alreda (Rua Al-Bishara), número 1 no ranking do Oriente Médio do Trip Advisor, tem decoração charmosa e delicioso terraço no jardim. O local se tornou um oásis para os nazarenos, então isolados pelos conflitos da Segunda Intifada, em 2000, até a Guerra do Líbano, em 2006. No menu, o frango em estilo marroquino, com amêndoas e mel, é um fantástico amálgama de sabor e doçura.

Doces. Apesar de Nazaré estar apenas começando a ser celebrada por seus restaurantes, a fama de seus doces é antiga. Uma loja, a Mahroum (Rua Paulus VI; mahroum-baklawa.com), é tão popular que contratou um recepcionista poliglota para atender turistas, moradores e visitantes de Israel. No balcão, escolhi um pedaço de baklava de pistache e outro de knafeh, especialidade palestina, massa folhada coberta com queijo e xarope. Eram excepcionais.

Depois da refeição, andei pelas ruas lotadas do animado souk da cidade. Procurava um café chamado Deewan Al-Saraya (Jardim da Mesquita Branca, no Mercado da Cidade Velha), onde eu já tinha visto mulheres jovens com lenços na cabeça bebendo café árabe e saboreando qatayef - panquecas fritas com xarope, típicas do Ramadã, mas tão deliciosas que acabam sendo servidas durante todo o ano. Andei em círculos por algum tempo, até chegar à barraca de roupas de Raida Saad. Por curiosidade, perguntei-lhe qual era seu restaurante preferido em Nazaré. Ela me respondeu que era o Misk. "Restaurantes aqui costumavam fazer coisas tradicionais. Mas agora, a moda é adicionar coisas daqui, coisas de lá."

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