Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

De toca em toca, cenas do cotidiano milenar

Em pleno período de seca o dia amanheceu com uma chuvinha bem paulistana. Ninguém gostaria de subir na garupa de uma moto em um dia como aquele, muito menos pegar os 27 quilômetros de BR-020 que separam São Raimundo Nonato e a minúscula Coronel José Dias, cidade mais próxima da guarita do parque nacional que dá acesso à Trilha do Desfiladeiro da Capivara. Mas antes das nove da manhã o sol já ardia, inclemente, deixando para trás qualquer resquício da chuva matutina.

SÃO RAIMUNDO NONATO, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2013 | 02h16

Tão logo atravessamos o portão, o primeiro sítio nos recebeu com o oportuno nome de Toca da Entrada do Pajaú. E que jeito de entrar no parque! Em um domo bem baixo, o complexo conjunto de pinturas de 12 mil anos foi desenhado por alguém deitado, tal qual um afresco na cúpula de uma igreja. Animais e outras figuras antropomorfas parecem se encaixar. Destaque para os quatro bonequinhos dançarinos, de traço fino e gracioso.

Única do roteiro sem nenhuma pintura rupestre, a Toca do Inferno conquista por sua formação complexa. Com cara de caverna, aprofunda-se por cerca de 150 metros na rocha, sempre com aberturas e belos feixes de luz entrando. Apesar de não conter obras de arte, possui a matéria prima dos desenhos espalhada aos montes pelo chão: óxido de ferro em pó.

Seguimos então à Toca da Entrada do Baixão da Vaca, segundo sítio de maior importância arqueológica no parque nacional. Com 133 metros de comprimento, a parede é um grande mosaico que reúne 749 figuras em cenas de sexo, dança e caça, com grande dinamismo, indicando movimento e ação.

Mais adiante demos de cara com um bando de oito macacos-prego. O macho alfa chegou bem perto para mostrar quem é que manda. De volta à trilha sob um sol escaldante, não espere nada da Toca dos Veadinhos Azuis, o grande mico da viagem: duas pequenas pinturas de veados quase apagados.

Melhor seguir para a Toca da Ema do Sítio do Brás, essa sim com desenhos nítidos, de um vermelho intenso. E para a Toca do Paraguaio, o primeiro sítio arqueológico apresentado à professora Niéde Guidon, em sua visita pioneira à região, em 1970. Além de encontrar imagens de figuras humanas dispostas dorso contra dorso - presentes em muitos paredões da região -, a pesquisadora escavou duas ossadas de mais de 7 mil anos, enterradas com pedras lascadas. / FELIPE MORTARA

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