De trem pela Serra do Mar

De trem pela Serra do Mar

A litorina de luxo parte enquanto Curitiba ainda dorme. São 7h30 de domingo, e parece menos. As manhãs enevoadas da capital paranaense revelam a paisagem aos poucos, à medida que o trem abre fumaça rumo ao litoral. Das poltronas confortáveis de veludo e couro, você acompanha cachorros, galinhas, casinhas de madeira. Logo serão apenas sítios, cavalos e bois nos pastos de araucárias solitárias, candelabros flutuando sobre a neblina. É o começo de um passeio de três horas que descortina a Serra do Mar pelos 68 quilômetros de trilhos da estrada de ferro que liga Curitiba a Morretes, uma das mais ousadas obras férreas do mundo.

ARYANE CARARO / CURITIBA, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2013 | 02h17

Uma taça de champanhe logo é servida. Da janelinha no fundo do segundo e último vagão, os trilhos deixam para trás a cena urbana para se embrenhar na maior área contínua preservada de Mata Atlântica do País. É nostálgica essa primeira parte. Logo o café da manhã será oferecido e é bom aproveitá-lo para ficar bem acordado para o que há de vir. Em breve, a litorina começará a fazer pequenas paradas nos pontos mais bonitos - coisa que o trem de passageiros normal, que também vai a Morretes, não proporciona, sem falar que tem desconfortáveis bancos de ônibus coletivo na categoria mais barata.

Inaugurada em 5 de fevereiro de 1885, a ferrovia foi considerada impossível por muitos engenheiros europeus na época. Para vencer a Serra do Mar, ela teria de descer 956 metros e passar por 13 túneis, vales, cachoeiras e precipícios, um deles com o sugestivo nome de Garganta do Diabo. E é exatamente isso que dá graça ao passeio.

Há trechos em que o trem parece flutuar ao lado das escarpas. E a vista é de prender a respiração, especialmente quando avança por pontes como a São João - a mais alta e mais longa da ferrovia, com 113 metros de extensão e 58 de altura, que parecem ainda mais devido ao penhasco.

As obras que começaram em 1880 empregaram 9 mil homens, nenhum escravo - um pedido dos irmãos André e Antônio Rebouças, que em 1873 apresentaram o traçado ao imperador Dom Pedro II. Foi a primeira obra no Brasil a usar a pólvora negra. E também tem o primeiro viaduto ferroviário em curva do mundo, o Carvalho, com 97 metros de comprimento e curva de 47°. Essa parte é bem impressionante - a sensação é de que os trilhos sumiram.

Piuí. A essa altura eu já estava na cabine do maquinista sob o pretexto de tirar fotos - o acesso pode ser combinado com as guias turísticas. Passei boa parte da viagem ao lado de Jayme Alves Santana, maquinista desde 1981 (ele vem de uma família de ferroviários), que me deixou realizar um sonho de criança: apitar o trem. Pergunto se há muitos animais por ali. Ele conta que, em 2004, amanhecendo o dia, viu uma onça cruzar os trilhos languidamente. Visão rara, já que os bichos costumam fugir com o barulho do trem. Nem cinco minutos depois, a litorina fez uma curva e lá estava um casal de gambás atravessando os dormentes. Um acaso feliz, pois o mais comum é que se avistem apenas os muitos pássaros e borboletas amarelas.

Mas animal nenhum seria preciso para fazer do passeio inesquecível. A mata verdinha já bastaria - e mesmo Jayme não se cansa de apreciá-la. É claro que há muito mais o que ver. Em Roça Nova, por exemplo, não muito longe de Curitiba, onde fica o primeiro e mais longo túnel (442 metros), há outro desativado que foi comprado por um empresário. A razão? Ele o transformou em cave para produzir espumantes pelo método clássico Champenoise, no qual a segunda fermentação ocorre na garrafa. Há também a nonsense chaminé de tijolinhos no meio da Represa Caiguava, resquício de uma bomba a vapor desativada nos anos 1930 e inundada em 1979, e a abandonada Casa do Ipiranga, onde o norueguês Alfredo Andersen pintou telas memoráveis. Tem ainda a barragem do Reservatório Marumbi, o expressivo Cânion Ipiranga, a cruz do barão e a bela cachoeira Véu de Noiva, com 72 metros .

Tudo isso vai passando pela janela. Mas há momentos de contemplação ao vivo. A litorina para por 15 minutos no Santuário de Nossa Senhora do Cadeado para apreciar o conjunto de montanhas Marumbi, cujo pico mais alto, o Olimpo, tem 1.539 metros. Faça muitas fotos e repita quantos "ohs" quiser. Não é raro a emoção fazer você sair dos trilhos.

Pequenos mimos

Na litorina, bancos confortáveis e champanhe à vontade

 

Pedaço de história A cruz do barão, na descida de trem, mostra o local em que Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, e seus colegas foram jogados do vagão e fuzilados em 1894, na Revolução Federalista

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