De viagens e casamentos

De viagens e casamentos

O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2010 | 08h00

Nosso incansável viajante vai visitar um destino que ainda não conhece: o balneário de Cancún, no México, que nunca considerou uma cidade, mas apenas um grande empreendimento imobiliário na Península de Yucatán. Dois motivos vão levá-lo a essa nova jornada. A realização da Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, em novembro (mr. Miles ainda quer saber se compra uma praia na Groenlândia para investir em um resort de verão), e a inauguração do Museu Subaquático de Arte, também chamado de Silent Evolution, criado pelo seu compatriota Jason DeCaires Taylor, filho de “uma velha amiga”.

 

Jason esculpiu 400 estátuas baseadas em pessoas verdadeiras e as depositou 10 metros abaixo da linha d’água, entre Cancún e Isla de las Mujeres. Seu propósito “oficial” é atrair os mergulhadores que visitam a região, aliviando, com isso, os danos que têm sofrido os recifes de coral da área. Algumas pessoas, porém, acreditam que o artista vai ganhar muito dinheiro explorando o museu. A inauguração do Silent Evolution está marcada para 27 de novembro.

 

A seguir, confira a correspondência da semana:

 

Mr. Miles: eu tenho uma curiosidade: o senhor já foi casado? Em caso negativo, por que optou pelo celibato? Blanche Novak, por e-mail

 

“Well, my dear, ainda que pessoal, sua pergunta é pertinente. Não, darling, jamais me casei. Em três oportunidades, estive perto de fazê-lo, mas, assim como jamais consegui estancar minha natureza nômade, minhas noivas acabaram sucumbindo ao desejo de lançar âncoras em algum porto seguro. Foram, I must say, longas e ardorosas paixões, quase sempre realimentadas pelo calor sensual de novas paisagens, novas sensações e descobertas. Mas Joanna se cansou após seis meses, Colette pediu que eu parasse depois de um ano e Carmem, a espanhola, propôs que vivêssemos juntos em Cádiz para formar uma família, ainda que eu passasse a maior parte do tempo abroad. A ideia pareceu-me boa, a princípio, mas foi recebida sem nenhum fairplay por Don Inácio, o pai da noiva, o que acabou determinando o fracasso daquela chance de matrimônio.

 

Tenho a impressão, dear Blanche, que seres errantes como eu me tornei por acaso acabam trocando essa parte da vida pela liberdade de amar aos poucos, de forma intensa e fugaz, nas paradas do caminho. E eis que, assim, sempre há um motivo para voltar a lugares nunca antes imaginados, seja para reviver alegrias ou colher decepções – o castigo dos que partem sempre e cedo demais.

 

Viagens, by the way, são componentes fundamentais de qualquer relação entre pessoas normais (o que, of course, não é o meu caso). Para os que estão se conhecendo ou para os que estão se desentendendo. Para os que querem começar ou para os que pensam que é tempo de acabar. É durante a jornada, em confronto com o espanto da novidade e o temor do desconhecido, que os casais realmente se conhecem ou se reconhecem. Longe de casa, um junto ao outro diante de escolhas que se sucedem, é que costumam vicejar emoções desconhecidas. Que, de um lado, podem confirmar ou reafirmar afinidades definitivas. E, de outro, unfortunately, apontam o caminho da cizânia e da separação.

 

Como diria meu velho amigo e grande psicanalista, o dr. Donnerstag, ‘jamais embarque numa união estável antes de viajar com seu suposto parceiro. Nem faça o contrário: nunca encerre uma união estável antes de viajar, mais uma vez, com o parceiro que pretende abandonar’. Ou seja: faça as malas anyway.”

 

Mr. Milles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos.

 

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Mr. Milles, Viagem

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