De Viena para Lisboa

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Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2015 | 12h59

De volta de mais uma temporada de birdwatching na Escandinávia, nosso correspondente britânico encontrou muitas mensagens delicadas em sua caixa postal. Além desta que ele responde hoje, mr. Miles mandou agradecer à leitora Maria do Carmo Guerra, autora de preciosos raciocínios como o que segue: "Admiro, mr. Miles, o seu grande armário de memórias; e, se alguma gaveta teima em não abrir de tão emperrada, o senhor tem a grande capacidade de recorrer ao faz de conta". A seguir, a missiva da semana.

Caríssimo mr. Miles: sou sua fã incondicional, já que, como o senhor, tenho paixão por viagens e por animais (tenho quatro cachorros, só que não bebem uísque como sua Trashie). Adoro seu estilo de escrever, com humor e inteligência. Gostaria de lhe pedir um conselho: minha filha é veterinária, vai fazer um curso de dermatologia em Viena e depois precisa seguir para Lisboa. O senhor sugere que ela vá de trem ou de avião? Como toda jovem, ela não dispõe de muito tempo, nem de muito dinheiro, as you can imagine. Aguardo com ansiedade sua resposta, já que considero muito tudo o que o senhor escreve. Abraços carinhosos. / Vivian Arendt Goldenbaum

Dear Vivian: de fato temos paixões em comum e só lamento que o bom destilado inglês não seja uma delas. Agradeço a generosidade dos seus elogios e lembro-me, veja só, de um certo dr. Arendt, que conheci em uma de minhas antigas viagens a São Paulo.

Seria muita coincidência se ele fosse membro de sua família. Fui, I remember, a ele encaminhado durante uma crise de dor de dentes. Era um homem grande, doce e gentil, mas, I'm afraid, tinha a mão ligeiramente pesada para um dentista. Mande a ele minhas saudações, caso você o conheça e, of course, se ele estiver entre nós.

Sua pergunta tem o carinho de todas as mães judias preocupadas com seus rebentos. However, espero que você não seja como aquela divertida mãe de Woddy Allen no filme New York Stories (N. da R.: no Brasil, Contos de Nova York), que ocupa o céu da cidade com o intuito de acompanhar cada um de seus passos e sempre lhe dar palpites.

No que diz respeito à viagem de sua filha veterinária (depois passe-me o contato caso Trashie tenha uma de suas crises hepáticas no Brasil), meu conselho vai contra a minha própria natureza.

Dispondo de tempo, as I do, eu sempre escolheria viajar por terra. Believe me: pode-se fazer grandes descobertas pela janela de um trem. Pequenas estações, lugares charmosos e pouco divulgados, rios, lagos e montanhas para onde é possível voltar caso se faça uma anotação no momento adequado.

Besides, a malha ferroviária europeia é tão ampla e espessa quanto um casaco da Aquascutum, daqueles que Winston (N. da R.: Churchill, estadista inglês) e eu sempre gostamos de usar em condições climáticas inclementes.

Unfortunately, dadas as circunstâncias de sua filha, a viagem ferroviária, I presume, vai sair cara e repleta de baldeações. Sem contar que a distância entre Viena e Lisboa é ainda maior do que a que separa, for instance, São Paulo e Recife.

Therefore - e com certa dor no coração -, eu sugiro que sua filha procure, desde já, companhias aéreas low fare, low cost (dessas que há, aos montes, na Europa) e faça uma reserva. Sair de um aeroporto menos central e chegar a uma cidade próxima a Lisboa pode resultar em uma grande economia, desde que tudo seja feito com antecedência. Espero, por fim, tê-la ajudado, apesar de meus parcos conhecimentos operacionais e logísticos. Sou, confesso, mais afeito às coisas do coração."

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

 

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