JB Neto/AE
JB Neto/AE

De vila industrial a destino turístico

Com casas iguaizinhas e ruas pouco movimentadas, Serra do Navio, criada para abrigar mineradores dos anos 1940, começa a aproveitar sua beleza natural para receber visitantes

Bruna Tiussu, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2012 | 03h07

SERRA DO NAVIO - Ela de fato não é uma cidade tradicional. Para começar, Serra do Navio tem apenas 10 anos. Antes, ainda na condição de vila, foi organizada de forma metódica: as casas são todas coladas e iguais, formando blocos idênticos. Escolas, mercados e lojas seguem a mesma estrutura, nada com muita cor. À noite, a iluminação pública é pouca, só não é menor que o número de estabelecimentos que se vê aberto e de gente circulando pelas ruas. Até parece uma prima brasileira da obscura ilha de Lost.

Toda sua peculiaridade, porém, tem explicação. Localizada a 210 quilômetros de Macapá, na região central do Estado - portanto, área rica em manganês -, foi pensada e administrada pela Indústria e Comércio de Minérios S.A. (conhecida como Icomi) durante os quase 50 anos em que a empresa ficou por ali. Com este modelo de organização, cumpria muito bem a função de "cama e mesa" dos trabalhadores. Ninguém precisava sair de lá para nada - até médicos especialistas eram levados em casos graves - e uma sirene diária com função de toque de recolher mantinha a eficiência laboral.

Agora, quase 15 anos depois que a companhia deixou o local, há um esforço para que sua feição industrial ceda espaço para outras vertentes, e Serra do Navio começa a despertar para outras potencialidade. O turismo, por exemplo.

Para descansar. Famílias inteiras da capital já têm a cidade como opção para um fim de semana de descanso ou destino para feriados prolongados. Pela distância razoável, infraestrutura básica - há algumas pousadas, mas nada que fuja do básico, e áreas para camping -, mas sobretudo por sua beleza natural.

Trilhas pela mata nativa que contam com poços e quedas d'água pelo caminho são opção de passeio no Parque Municipal do Canção. Outras atrações dependem de sua sorte: pássaros coloridos e tucanos são comuns ali. Assim como o beija-flor-brilho-de-fogo, grande e avermelhado, exclusivo da região.

Pedindo informação, é possível encontrar o parque sozinho. Porém, um guia é opção mais recomendada, e a instrução para chegar até um é simples assim: vá na prefeitura e procure o Janildo Almeida, secretário de turismo. Deixe o resto por conta dele.

No verão ou no inverno, a sensação de abafamento ganha alívio nas cachoeiras. Para alcançar a da Pedra Preta é preciso pegar um barquinho (cobra-se R$ 20 pelo trajeto) e em dez minutos se chega lá. Árvores centenárias, com troncos e raízes gigantes, dão graça à panorâmica. O mesmo barco leva até a do Capivara, que durante o verão (época da seca) ganha altura impressionante. A distância, porém, é considerável: são 2 horas navegando.

Com profundidade de até 80 metros, a Lagoa Azul convida para um mergulho, antes ou depois do piquenique. Sua coloração entre o azul-turquesa e o verde-água, em meio à sempre barrenta água dos rios, é de se admirar. E se quiser entender a razão, receberá centenas de explicações. Melhor, então, deixar na lista das peculiaridades da cidade.

 

Açaí salgado e outras peculiaridades

A bandeirinha vermelha é sinal de açaí. Onde existe uma - e, acredite, elas estão por toda parte do Estado -, pode entrar que a iguaria 100% natural é garantida. Mas em toda Região Norte, nada de misturá-lo com guaraná, granola e rodelas de banana. Lá, açaí é refeição, servido nas mesas das residências e restaurantes com peixe, frango ou carne seca. Escolha seu preferido.

Outro curinga da culinária amazônica é o tacacá - este, por mais estranho que pareça no começo, você não pode deixar de provar. O preparo leva camarão, o famoso tucupi - caldo amarelado extraído da raiz da mandioca -, jambu, uma erva típica da região, e temperos. É servido numa cuia, para você se "refrescar" no fim da tarde.

Direto da terra. Comprar, provar, pegar nas mãos ou simplesmente ver produtos naturais tão comuns para os locais e exóticos aos nossos olhos enriquece qualquer viagem. Em Macapá, o destino certo para a experiência é a feira do produtor. Há frutas de monte: açaí (sempre ele!), cupuaçu, taperebá, graviola, pupunha - além do palmito, comer a fruta também é comum. Costuma ser cozida e servida quentinha, para acompanhar o café.

Pimentas e farinhas de vários tipos, além dos vidros de tucupi enriquecem a lista dos ingredientes de primeira necessidade - segundo os moradores de lá, claro. E castanhas-do-pará in natura e bombons feitos a partir dela têm espaço reservado.

Outra experiência válida, capaz de fazê-lo apreciar ainda mais a cozinha do Norte, é degustar tais iguarias em pratos bem elaborados. No restaurante Estaleiro (Avenida 1.º de Maio, 52), provei o peixe - um filhote fresquinho - ao molho de taperebá. O prato custa R$ 55 e serve duas pessoas. De pedir para repetir!

Sobremesas do dia a dia, como o creme de cupuaçu ou graviola são uma delícia. Assim como os sorvetes, que naquele calorão todo são imprescindíveis. Prove o de cupuaçu com castanha-do-pará, depois o de tapioca, quem sabe o de taperebá, de bacuri.

 

Para ver a pororoca ao lado de um especialista

O paranaense Serginho Laus deixou pra trás as ondas do sul para se tornar campeão de surfe na pororoca do Rio Amazonas. Foi no ano 2000, aos 21 anos, que ele se aventurou pela primeira vez no encontro das águas barrentas do rio com as do mar, e passou a voltar a cada ano.

O fenômeno ocorre em vários rios da região (também em países como França e Indonésia), sempre em época de lua cheia ou nova, quando a água do mar encontra com a do rio com intensidade tamanha que é comum formar ondas de até cinco metros de altura. Elas são tão poderosas que arrastam árvores e modificam o leito do rio. Segundo ele, o medo existe, mas é abafado pela adrenalina de experimentar o imprevisível. "É como se fosse um tsunami, a força da água é tanta que tudo pode acontecer ali. Me apaixonei pela aventura logo de cara." Em 2009, o recorde oficial de onda mais longa surfada no mundo foi dele: 11,8 quilômetros.

Quando não está com prancha a postos, o surfista organiza expedições que levam turistas até os melhores pontos para observar a pororoca. Detalhes dos tours no surfandonaselva.com.br.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.