Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

'Deixa Falar'

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2017 | 03h00

"O carnaval não vai para trás, assim como a vida”, me disse, semana passada, num bate-papo por telefone, Ricardo Cravo Albin, musicólogo e um dos maiores pesquisadores sobre Música Popular Brasileira do País. Ele parafraseava, com sabedoria, a célebre colega historiadora Eneida de Moraes.

Falávamos sobre o fatídico corte de 50% da verba a ser repassada às escolas de samba do Rio de Janeiro em 2018, anunciado pela prefeitura de Marcelo Crivella (PRB) há pouco mais de uma semana. Sob a justificativa de que metade dinheiro – R$ 13 milhões – será destinado às creches e que “todos precisam contribuir”, palavras do prefeito, as atuais 13 escolas do Grupo Especial receberiam R$ 1 milhão cada uma para desfilar. Resultado: todas elas disseram ser inviável dessa forma.

Antes de mais nada, ouso argumentar que cortar verbas de um produto cultural exportado para todas as partes do mundo, gerador de empregos e saudável à economia da cidade – em 2016, 1,1 milhão de turistas movimentaram R$ 3 bilhões – é contradizer o próprio discurso fácil do ‘é para sair da crise’. Inclusive porque o carnaval nada tem a ver com o problema da má distribuição de verbas públicas.

Cravo Albin foi além: “acho não apenas um despreparo para quem deveria conhecer a cidade com mais acuidade, como também um desserviço tanto à cultura, quanto ao turismo e ainda à própria face da cidade do Rio de Janeiro”.

O carnaval, ou melhor, sua resistência é, por isso, o tema de abertura desta coluna sobre viagem, sobre história e sobre os lugares no mundo (e dentro de nós) onde essas duas artes se encontram. A cultura, sem dúvida, é um desses lugares. 

Não se trata, portanto, de quanto dinheiro é necessário para um desfile sair, mas do princípio básico de que as manifestações culturais devem ser valorizadas porque traduzem a essência de um povo e são, ao mesmo tempo, o melhor que podemos levar dos lugares por onde passamos. 

Um amigo inglês, ao visitar São Paulo no início deste ano, não só foi contagiado pela autenticidade dos blocos de rua, como saiu daqui encantado e cheio de fotos dos grafites da cidade. Ele viu beleza em ambos, ele conheceu a história de ambos e migrou com elas para outros mundos. 

Claro que o carnaval vai além das escolas de samba cariocas. Mas sua história deve muito a elas. Dos ranchos e cordões que desciam os morros para colocar o samba no asfalto ao surgimento das grandes sociedades ao longo do século 20, elas e seus tantos personagens estão diretamente ligados à história do Rio de Janeiro, a seu desenvolvimento urbano, à música que canta a vida dos brasileiros.

No caminho inverso do de Crivella e seus pares, que olham para a cultura como algo extraordinário à obrigação do poder público, a história nos incentiva a nos apropriarmos dela para que, em nosso passado, encontremos a compreensão do presente e possamos, assim, olhar para frente.

Essa coluna de abertura, por isso, volta no tempo ao levar o mesmo nome do primeiro rancho carnavalesco do Rio, o Deixa Falar, nascido no Morro do Estácio na década de 1920. E vai para a frente no desejo de que nós, viajantes daqui, possamos experimentar as culturas de lá plenamente. E de que eles, viajantes de lá, possam fazer o mesmo quando chegarem aqui. Afinal, viajar é ver a história correr diante dos olhos – fazendo parte dela.

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