Delícias de uma acolhedora capital

Montevidéu é uma cidade paradoxal. Poderiam ser sobre ela as palavras que o escritor e parlamentar mineiro Afonso Arinos usou para definir-se certa vez: "amor pelo passado e sentimento do futuro". Um profundo culto às raízes uruguaias e a um outro tempo convive, em suas alamedas arborizadas, com um vivo anseio de modernidade e grandeza.

GUILHERME CONTE / MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2012 | 03h07

É neste pêndulo que se ergue, às margens do Rio da Prata, a capital do Uruguai. Com 1,9 milhão de habitantes - quase 59% dos 3,3 milhões que vivem no país -, a cidade tem neste constante movimento uma das marcas fundamentais nos dias de hoje. O turista que busca o charme saudoso de uma capital pequena, acolhedora e segura divide cada vez mais espaço com os homens de negócio.

E assim seus sobrados e prédios de três andares e variados estilos arquitetônicos (art nouveau, art déco, eclético) veem surgir grandes torres envidraçadas. Carlos Otts, o arquiteto uruguaio queridinho dos xeques de Dubai, também deixou sua marca no skyline da capital. Mas um ar de nostalgia ainda paira sobre a cidade. Um lugar onde a prefeita anda de ônibus, crianças de uniforme passam sozinhas a caminho da escola e um certo gosto pelo antigo parecem determinar um modo de ser montevideano.

A Ciudad Vieja é onde essa característica fica mais evidente. Ali estão boa parte das livrarias, museus (leia mais na página 7) e também dos restaurantes e cafés. Comece pela bela Plaza Independência, onde fica a porta de pedra que guardava a antiga cidade, a Puerta de La Ciudadela. É a síntese dessa "tensão" entre o velho e o novo: o teatro Solís ao fundo e os predinhos clássicos lado a lado com a moderna sede do governo federal e os arranha-céus de vidro azul. O destaque óbvio é o imponente edifício eclético Palacio Salvo, com sua torre peculiar, obra do arquiteto italiano Mario Palanti e símbolo da cidade. Da esquina sai a Avenida 18 de Julho, uma das artérias comerciais da cidade, com galerias e galerias de lojas que vendem de tudo.

Siga pelo calçadão até a Plaza Constitución, uma das mais antigas e bonitas. Aos fins de semana, a feirinha reserva antiguidades e algum artesanato. A Catedral Metropolitana evoca outros tempos, com um belo retábulo e um grande órgão. Ela também guarda uma lenda: dizem que os casamentos celebrados ali têm a comprovada fama de acabar mal... Cruzando a praça está o Museu e Arquivo Histórico Municipal, um notável edifício colonial do século 19.

Descendo pela Calle Ituzaingó fica o tradicional Café Brasileiro (n.º 1.447, esquina com a 25 de Mayo), aberto em 1877. Lotado no fim de semana, oferece bons docinhos. Há quem diga que, com sorte, seja possível encontrar ali o escritor Eduardo Galeano tomando chá. Um bom ponto para descansar das caminhadas - fundamentais para desbravar a cidade.

Os quarteirões seguintes guardam algumas joias arquitetônicas - explore sem pressa e aproveite para deixar a fome aumentar. Um calçadão leva até o Mercado Del Puerto, parada obrigatória para os interessados em um dos maiores orgulhos do Uruguai: o churrasco. Se você resiste à simples ideia de um "lugar turístico", respire fundo. Turístico, sim, mas onde se come uma das melhores carnes da cidade. O antigo mercado reformado é repleto de lojinhas e restaurantes de alto padrão - o El Palenque carrega a fama de ser o melhor deles.

Dentre as zonas renovadas de Montevidéu, os bairros de Punta Carretas e Pocitos são símbolos do "espírito modernizante". O shopping de Punta Carretas, construído no prédio de uma antiga prisão, é a coqueluche da elite montevideana. Já é quase clichê dizer que são quarteirões que lembram o bairro de Palermo, em Buenos Aires. Nas tardes quentes de verão, uma cerveja gelada (a Zillertall e a Patricia são boas pedidas entre as nacionais mais comuns) em uma das mesinhas na calçada cai muito bem.

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