Depois da tormenta

Na primavera de 218 a.C., Aníbal entrou na Gália com seu exército para derrubar Roma da maneira mais pirotécnica possível: eram 40 mil homens, 12 mil cavaleiros e 37 elefantes, que começavam uma extraordinária travessia dos Alpes em direção à planície do Rio Pó. A força do jovem general cartaginês e o tamanho de sua legião mostram a história que carrega a Tunísia, um pequeno território apertado entre gigantescos vizinhos, Líbia e Argélia.

CRISTIANO DIAS / TÚNIS, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2012 | 03h09

O primeiro passo para entender a importância do país é recuperar o brilhantismo de Cartago. O último é saber que partiu dali, no ano passado, o trem expresso da Primavera Árabe, a maior onda revolucionária deste século, que varreu as ditaduras mais indecentes do planeta.

Cartago e Tunísia são duas faces de uma moeda só. Segundo a versão mais verossímil, o nome Túnis foi corrompido de Tanit, ou Tunit, deusa fenícia e padroeira dos cartagineses, que eram os americanos do século 3.º a.C.. Cartago, potência hegemônica sustentada pela maior marinha do Mediterrâneo, era perseguida pelos gregos, em franca decadência, e por Roma, já em ascensão.

A fantástica legião de Aníbal e seus elefantes guerreiros estiveram a um passo de aniquilar o exército romano. Se tivessem conseguido, talvez Cartago fosse hoje a Cidade Eterna e o mundo seria outro. Com a derrota, as cidades cartaginesas foram romanizadas e muitas venceram o tempo: o coliseu de El-Jem, os templos de Sbeitla, Dougga e Cartago, cujas ruínas convivem lado a lado com hotéis e restaurantes no subúrbio mais elegante de Túnis, a capital mais vanguardistas do mundo árabe.

Embora conserve o passado otomano e colonial, Túnis é a parte mais ocidentalizada do país. À noite, os tunisinos se divertem como se estivessem em Paris. Nos restaurantes La Closerie e Le Boef Sur Le Toit, ambos em La Soukra, e no bar do hotel Villa Didon, em Cartago, as mulheres desfilam sem véu e os homens esvaziam suas garrafinhas de Celtia, a cerveja local.

Apesar do rastro europeu, é impossível não perceber os traços islâmicos e os últimos 55 anos de autoritarismo. Desde a independência, em 1956, as coisas na Tunísia foram ditadas por dois homens: Habib Bourguiba e Zine el-Abidine Ben Ali.

Bourguiba está no panteão dos heróis africanos que lutaram pela descolonização. Fiador da secularização, ele dá nome a praças, avenidas, aeroporto e ganhou um mausoléu em Monastir. Seu legado foi a liberdade religiosa e uma Constituição que preservou alguns direitos da mulher. O patriarca dos tunisianos, no entanto, foi um ditador que governou por 30 anos sem mover uma palha pela democracia.

Em 1987, foi deposto por Ben Ali, seu primeiro-ministro. O novo ditador manteve a linha moderada, mas não economizou na repressão, até que a paciência dos tunisianos se esgotou. A revolta do ano passado foi catalisada pelo desespero do jovem Mohamed Bouazizi, que ateou fogo ao próprio corpo depois que sua mercadoria foi apreendida por agentes do governo. Em menos de dez dias, o mundo tinha um autocrata a menos.

A Revolução de Jasmim mostrou a porta de saída para outros chefões do Magreb e do Oriente Médio, encheu o país de esperança, mas fez o turista sumir. Mais de 2 milhões de pessoas deixaram de ir à Tunísia no ano passado, um recuo de 30% em um setor que representa 7% do PIB.

No entanto, o pior já passou. Quem perceber isso bem rápido pode experimentar a sensação de estar em lugares atraentes sem a horda de caçadores de fotografias e ficar em hotéis classudos a preços de banana - pelo menos por enquanto.

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