Arte/Estadão
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'Depois de dez anos, finalmente ele está preso'

Você está acostumado a ler aqui minhas histórias de viagens. Hoje, peço licença para contar a história da Clarissa*

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

08 Março 2018 | 03h00

Geralmente você lê sobre viagens com crianças aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Clarissa*, de 36 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida - se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos - homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Eu não queria isso. Ele é o pai de dois dos meus quatro filhos, e ninguém quer o pai de seus filhos preso. Também não acho que a cadeia vai resolver os problemas dele. Mas estou aliviada. Com ele preso, eu estou livre. 

Ele foi meu marido por 15 anos. Nos cinco primeiros, apesar das brigas, até que as coisas iam bem. Ele era possessivo, talvez por ser mais velho do que eu. Eu não podia sair de casa sem ele por nenhum motivo, e se quisesse manter uma amizade, ele só deixava se também tivesse livre acesso à casa da pessoa. A minha vida era uma prisão, mas ele ainda não encostava a mão em mim.

Ele bebia e usava outras drogas, e acho que foi por isso que foi perdendo o controle. Faz dez anos que começou a me agredir. Meus filhos eram pequenos; para protegê-los, eu apanhava calada. Não adiantou. As surras passaram a acontecer em qualquer lugar e a qualquer hora. A vida virou um inferno. Um dos meus filhos se tornou um jovem agressivo por ver a situação dentro de casa, e agora, com 20 anos, está na cadeia. Eu temia que os meninos acabassem matando o pai ou, pior, que acontecesse o contrário.

Finalmente meu ex-marido está preso. Durante muito tempo, foi ele quem me trancou em casa. Tenho 12 boletins de ocorrência. Mas ninguém do poder público quer saber da gente de verdade. Na delegacia da mulher, eu esperava horas em uma sala que não tinha nem bebedouro, nem papel higiênico no banheiro. É humilhante a gente não ter papel para ir ao banheiro.

Eu não queria o mal dele, só queria que me deixasse em paz. Tentei me separar quatro vezes. Uma vez, a polícia pegou meu ex-marido no portão da minha casa. Eu tinha três medidas protetivas, mas a polícia não o levou.

Acho que só estou viva ainda porque ele finalmente está preso. Desisti de processos por falta de apoio. A Justiça estava esperando que eu morresse para fazer alguma coisa. Na última das minhas tentativas de separação, no finalzinho de 2014, ele colocou fogo na casa. Até os vizinhos vieram ajudar. Então ele ameaçou matar todos nós e se matar caso eu não voltasse com ele. Voltei.

Fui mais uma vez chamada de safada. Foi assim durante todos esses anos. Diziam que eu gostava daquela vida porque sempre voltava.

Consegui me separar de fato em setembro de 2015. Precisei deixar meus filhos com familiares e sair da minha casa. Ele me perseguia na rua, jogava o carro em cima de mim. Vivi escondida em casas de conhecidos durante dois anos.

Faz cinco meses que meu ex-marido finalmente foi preso, mas não pelas agressões e ameaças a mim e a meus filhos. Ele foi preso em uma blitz por porte de drogas.

Ele nunca deixou faltar nada em casa. Também nunca me permitiu trabalhar durante os 15 anos e seis meses em que vivemos juntos. Tenho 36 anos e, agora, sou faxineira. No momento, tenho apenas um cliente semanal. No nosso bairro todos o conhecem; por isso, ninguém me dá trabalho. Estamos vivendo com R$ 85 de Bolsa Família e alguma ajuda das pessoas da minha igreja. Encontro forças nos meus filhos e na minha neta, filha de minha filha de 18 anos, que nasceu há dez dias. Fácil não está.

Mas ele está preso e eu, finalmente, estou livre. 

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima. 

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