Desafio nas alturas

Por que subir uma montanha? Fomos até o Atacama buscar a resposta

Humberto Maia Junior, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2009 | 02h35

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A 5.500 metros de altitude, no topo de um vulcão, as coisas não são nada fáceis. O vento sopra a uma velocidade que chega aos 60 quilômetros por hora. É frio, tão frio que você mal consegue sentir seu rosto. E forte, tão forte que um descuido à beira do precipício pode ser fatal. Sem falar que o ar rarefeito deixa qualquer um fragilizado. Mas o pior já passou. A beleza da paisagem serve como resposta a uma pergunta recorrente: diante de condições tão adversas, por que subir uma montanha?

Sob seus pés abre-se a enorme cratera do Vulcão Láscar, no altiplano do Deserto do Atacama. A fumaça de enxofre sai de vários pontos, exala o característico cheiro de ovo e indica: o vulcão está em plena atividade. Um dos mais ativos de todo o Chile, aliás.

Mas não há perigo, garantem os guias de San Pedro de Atacama, que levam aventureiros à cratera. Geólogos acompanham o dia-a-dia do vulcão e, baseados em sinais como a densidade da fumaça, podem prever uma possível erupção com antecedência. Por isso, o maior desafio para os visitantes é mesmo chegar lá em cima. A não ser que você seja um alpinista experiente, não será fácil. É preciso ter bom preparo físico, fôlego e determinação.

O caminho até a base do Láscar, a partir de San Pedro, é trabalhoso e encantador: são duas horas e meia em um 4X4, entre asfalto e terreno acidentado, em meio a montanhas e paisagens áridas do deserto.

PARA O ALTO

Por não ter o tradicional formato de cone e pela presença de outras montanhas ao redor, o Láscar passa a impressão de ser pequeno. É ilusão de ótica, como você vai perceber meia hora depois de começar a caminhada.

A subida só é leve nos primeiros metros. Mesmo assim, é recomendável dar passos lentos e sincronizados com a respiração, que deve ser profunda. Cerca de 45 minutos depois, a dificuldade aumenta. A trilha, até então ampla e bem marcada, torna-se estreita, íngreme e cheia de pedras que desestabilizam os pés. O desafio começou.

Ao passar dos 5 mil metros de altura, a impressão é a de que o vulcão não nos quer em sua cratera. Usa como armas de persuasão o vento fortíssimo e as pedras que insistem em rolar sob os tênis. Lábios secos e cheios de poeira, narizes quase congelados - a temperatura chega abaixo dos 10 graus negativos - dão a certeza de que, em alguns lugares, a natureza não é gentil com o homem.

A 5.500 metros, a quantidade de oxigênio é a metade da encontrada no nível do mar. O corpo reclama: o coração acelera, os movimentos ficam lentos, alguns passos exigem descanso. O raciocínio fica confuso.

Com pouco oxigênio, a atividade cerebral é afetada e a capacidade de julgamento pode se alterar. Pensamentos e ilusões se misturam e é possível ter devaneios. E ainda não se vê nem sinal do cume. Nesse ponto, inevitável não pensar em clichês como força de vontade e superação. O desejo de chegar até o fim é a única certeza.

Para afastar o desânimo, o guia vai mentir um pouquinho. Após avaliar sua personalidade, ele recomendará que você não relaxe porque ainda falta muito quando, na verdade, o cume está perto. Ou pode jurar que a cratera fica depois daquela pedra - quando ainda está muito além. Subir e descer leva entre 3 e 5 horas.

APOTEOSE

Todas as dificuldades ficam para trás quando você atinge o topo da montanha. Sentir o vento, ver o chão tão distante que é impossível enxergar o carro na base, e ter a cratera, imensa, à sua frente, são momentos inesquecíveis. A chegada é apoteótica.

Durante a luta contra as forças da natureza e os apelos do corpo para desistir, é inevitável que a pergunta feita no começo deste texto volte, insistentemente, à sua cabeça. Por que subir uma montanha? Muito antes dos primeiros passos, eu tinha certeza dos meus motivos. Cada aventureiro tem suas razões para encarar tal desafio. Que podem servir de estímulo para que você encontre a sua resposta.

DICAS PARA ANOTAR  

PASSO A PASSO - Trekking pelo Vulcão Láscar leva de 3 a 5 horas

COMO IR

Em San Pedro, há várias agências que levam turistas aos vulcões da região, como Expediciones Corvatsch (http://www.corvatschchile.cl/),

Atacama Connection (http://www.atacamaconnection.com/) e Vulcano Expediciones (http://www.vulcanochile.com/). O passeio ao Vulcão Láscar custa, em média, 80 mil pesos chilenos (R$ 265) para duas pessoas. Inclui transporte e lanche de trilha

O QUE LEVAR

linkÁgua (as agências não fornecem)

linkAlimentos energéticos como banana, biscoitos e barras de cereais

linkProtetores solar e labial

linkJaqueta corta-vento

linkLuvas

linkGorro

linkMeias de material sintético

linkTênis de trekking

linkÓculos de sol

linkMáquina fotográfica

COMO SE PREPARAR

linkAntes de subir um vulcão ou montanha acima de 2.500 metros é preciso adaptar o corpo à altitude. O ar rarefeito exige capacidade extra do organismo para funcionar com menos oxigênio. Sem a preparação, há risco de edemas pulmonar e cerebral, que podem levar à morte:

linkAntes da subida, passe alguns dias em uma altitude pouco acima dos 2.300 metros

linkEvite exercícios físicos pesados

linkA alimentação deve ser leve. No dia anterior à subida, fique longe de bebida alcoólica e carne vermelha

linkBeba bastante água para manter o corpo sempre hidratado

linkFaça passeios diários a lugares com até 4 mil metros de altitude

linkPílulas contra o soroche (mal da altitude), chá e folha de coca até minimizam os sintomas - enjoos, cansaço e dor de cabeça -, mas não forçam o corpo a se adaptar

RAIO X

linkO cume do Vulcão Láscar está a 5.592 metros de altitude

linkEm 1993, durante uma erupção, as lavas chegaram a 8,5 quilômetros da base e as cinzas atingiram Buenos Aires, a 2.500 quilômetros de distância do vulcão

linkAs erupções mais recentes ocorreram entre abril de 2006 e janeiro de 2007

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