Paulo Saldaña/Estadão
Rabelo, antigo barco, passeia pelo Rio Douro Paulo Saldaña/Estadão

Rabelo, antigo barco, passeia pelo Rio Douro

Paulo Saldaña/Estadão

Desbravando Portugal a bordo de um motorhome

Estradas ‘giríssimas’ (legais, na gíria local) entre as cidades do Porto e Queluz e paradas inesquecíveis, como dormir em frente a um patrimônio mundial, entraram no nosso roteiro

Renato Jakitas , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Rabelo, antigo barco, passeia pelo Rio Douro

Paulo Saldaña/Estadão

PORTO - Com 800 quilômetros de atrações de norte a sul, estradas que incomodam pela perfeição e indicadores de segurança invejáveis até para os vizinhos ricos, Portugal é uma espécie de campo minado das atrações turísticas do hemisfério norte ocidental. Essa “Disneylândia” da história do povo europeu também é um desbunde para o estômago e para o fígado, mas como tudo que é bom na vida, reserva um desafio: o planejamento da viagem.

Tem quem ame o trabalho de produção de viagem, com a escolha de onde estar e dormir, os detalhes das atrações para visitar e a arte sutil que envolve organizar, desorganizar e voltar a arrumar as malas para sempre seguir em frente – sem deixar para trás um pé de chinelo, um carregador de celular e outras quinquilharias que a gente adora (e nem sempre precisa) levar pelo caminho. Eu odeio esse processo. 

Em meio a essa adversidade, surgiu a ideia de alugar um motorhome, um trailer ou, como eles dizem por lá, uma autocaravana. E foi imaginando a liberdade de passar a noite onde quiser, como e com quem quiser e até cozinhar debaixo de um ponto turístico bacana que vi despertar um lado selvagem cosmopolita novo, numa ideia que de pronto pareceu tão genial a ponto de sumir com todas as demais opções de minha mente. 

O primeiro caminho, claro, foi sondar o preço dessa aventura. Pesquisei veículos, campings e, para um mínimo de preparação, consegui uns desses livros de viagem com os passeios e as dicas dos profissionais versados em Portugal.

 

PRIMEIROS PASSOS

A primeira surpresa agradável foi que um motorhome, para sete dias, sairia mais ou menos o mesmo que o valor de um hotel mediano para quatro estadias: em torno de 1,5 mil euros (R$ 6.600). A segunda novidade, arrebatadora, viria com os pontos de pernoite. Portugal, como quase toda a Europa ocidental, tem parques gratuitos para o estacionamento dos veículos, com toda a estrutura para higienizar e recarregar o veículo com água tratada. Existem, imagine só, até aplicativos que se integram ao GPS do celular e fornecem a localização desses estacionamentos ao longo do percurso, ao estilo do Waze ou do Google Maps. Sucesso.

Uma vez que o mercado de motorhomes na Europa é um ramo economicamente pujante, criou-se por lá um ecossistema complexo de empreendimentos e, para o consumidor, um nicho com serviços estruturados. Dito isso, é fácil localizar algumas dezenas de sites para locação de veículos no buscador do Google. A maior parte é de empresas que se assemelham às tradicionais locadoras de carros que temos por aí, com modelos para muitos bolsos, gostos e, aparentemente, uma frota robusta no estoque durante as quatro estações do ano. 

A regrinha básica da economia é que a demanda alta gera a oferta vasta. Em Portugal, a oferta é tão abundante que chega a confundir um viajante não versado no tema, como eu. Encontrei certa complexidade em avaliar naquele oceano de oportunidades aquela que seria adequada para o propósito estabelecido. Como não tinha tempo a perder, abandonei o caminho da especialização, fui até o site do AirBnb e digitei: autocaravana + Portugal. Bingo.

O AirBnb já há algum tempo tem buscado diversificar seu modelo de negócios e, para além dos imóveis tradicionais, aposta no que denomina “experiências” para o viajante. Nesse contexto, hoje oferece barcos, iates, passeios de balão e, como supunha, motorhomes. 

Depois de me certificar cuidadosamente de que a minha habilitação de motorista tipo B, a mais simples para carros, era suficiente para tocar o bruto pela geografia sinuosa lusitana, peguei os livros de viagens e, em pouco mais de uma hora, defini o esboço do passeio. Isso me custou caro, literalmente: os pontos não planejados quase me fizeram estourar o orçamento. 

 

PLANO DE VIAGEM

O plano da viagem: sair do norte do país e ir o máximo possível para o sul, reservando um dia para retornar. Se sobrasse tempo, daria seta para o leste e atravessaria a fronteira para encarar um cozido de carnes variadas acompanhado por sangria na Praça de Touros Monumental de Las Ventas, em Madri, capital espanhola. Por isso, refinei a busca e acrescentei a cidade de Porto, preservando as cercanias onde nasceu o escritor Eça de Queiroz como começo e fim da aventura.

Autocaravana alugada, a própria dona do veículo se encarregou de fazer uma apólice de seguro para eventuais acidentes – o que custou 100 euros (R$ 440). Com a passagem para o Porto em mãos, peguei uma mala grande, coloquei dentro todas a quinquilharias que gosto e não preciso e atravessei o Oceano Atlântico por 10 horas, sentindo-me como uma espécie de bandeirante do avesso, um paulista desbravando Portugal, com todos os avanços tecnológicos que esses 500 e poucos anos produziram para aventureiros de apartamento. O resultado está nas próximas páginas, no diário de bordo.

SAIBA MAIS

Estrada: as vias principais têm pedágios (portagens). Em alguns, é preciso pegar o papel em uma cabine para pagar depois, de acordo com a distância percorrida. O site viamichelin.pt ajuda a fazer o cálculo de gastos com pedágios e combustível.

Úteis: o app park4night, reúne lugares para parar o motorhome na Europa. O site autocaravanismo.pt também tem boas informações.

MAIS - Conheça as novas regras de viagem para menores

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 1: agito e vinhedos no entorno do Douro

A bordo de um motorhome, visitamos a cidade do Porto e Gaia, onde é possível degustar os famosos vinhos

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Depois de chegar ao Porto um dia antes do combinado e passar a noite no Sheraton, a 15 minutos do centro, um funcionário avisou que uma senhora aguardava do lado de fora com uma autocaravana. A primeira vista do carro assustou. Tratava-se de um caminhão VUC da Ford, desses pequenos que circulam durante o dia fazendo entregas em São Paulo, com uma carroceria em formato de casa. Um homem de 1,80m consegue dar 7 passos na carroceria, dotada de cama de casal no segundo pavimento, uma mesa com bancos para quatro pessoas, fogão, forno, geladeira, armários, banheiro com chuveiro e uma beliche no “piso térreo”.

 Conhecer o motorhome e descobrir todos os seus macetes envolve um check-list de 1h30, lido pela host do AirBnb. Fui informado sobre como acionar a suspensão ativa, o aquecedor central e travei contato com uma terminologia nova de “águas brancas” (limpas), “cinzas” (vindas dos ralos) e “escuras” (esgoto) relacionadas à limpeza dos dejetos do banheiro.

Outro ponto de tensão envolvia a direção do motorhome. A locadora do veículo repetiu ao menos três vezes que o veículo era de fácil condução, mas era preciso tomar cuidado com alguns detalhes do caminho, geralmente despercebidos pelos carros de passeio, como copas de árvores, a altura de alguns semáforos e, pasmem, sacadas de casas. "Já aconteceram acidentes envolvendo batidas em sacadas", disse. 

Do ponto de vista econômico, o Porto é a segunda cidade de Portugal, que tem Lisboa como centro de negócios. A 9 quilômetros do mar, ela é cortada pelo Rio Douro – em suas margens floresceu uma agitada vida boêmia com bares, restaurantes e baladinhas. O clima é de romance com casais de todo o mundo.

O centro histórico dá uma sensação de familiaridade: é fácil reconhecer nas casinhas antigas, coloridas, a arquitetura de cidades históricas brasileiras. 

Outro passeio fundamental envolve passear pela Ribeira, sentar em um bar e ver a vida passar. É ali que está o centro novo da cidade, com cartões-postais consagrados, como a estação ferroviária São Bento. Vale a pena tirar 5 minutos do seu tempo para entrar, mesmo que rapidinho, e admirar sua bela entrada com pinturas feitas em azulejos portugueses.  

Na Ribeira também está a Livraria Lello, que serviu de inspiração para J.K. Rowling criar a Floreios e Borrões, da saga de Harry Potter. O prédio, de 1906, se tornou ponto turístico – por isso, teve de mudar sua forma de visitação. Agora, vende vouchers de 5 euros (R$ 22), que valem descontos na compra de livros.

 

CAVAS, O PASSEIO FUNDAMENTAL

Do outro lado do rio, a cidade é Gaiafoi para lá que levei o motorhome assim que saí do hotel. Estacionei o mais longe possível da confusão, desliguei tudo e retirei a bicicleta do suporte para conhecer a cidade. Depois de uma volta, decidi prender a magrela na roda gigante de Gaia e seguir a pé.

É nessa região que se concentram as cavas de vinho do Porto. As degustações começam em 10 euros (R$ 44), mas podem chegar a 100 euros (R$ 440), dependendo da cava e da privacidade adquirida no pacote. Entre os destaques, a Graham’s fica em uma propriedade de 1890, a poucos metros do Douro, e só aceita visitas com hora marcada. Na Croft e na Taylor’s não é necessário agendamento. Já na Churchill’s é possível optar entre a degustação, almoço harmonizado ou mesmo dormir nas acomodações. A Ferreira tem uma tradição de mais de 250 anos. Só não vale beber e dirigir.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 2: furacão, doçuras e ruínas

Viagem a bordo de veículo enfrentou o furacão Leslie em Gaia, na região do Porto

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Quando voltei para “resgatar” a bike presa à roda gigante em Gaia, estava apreensivo. Já estava sabendo que o furacão Leslie, o maior em Portugal desde 1842, havia alcançado o continente exatamente naquele dia, o primeiro em que estava com o motorhome. Segundo o motorista do Uber com quem conversei, o furacão chegaria na madrugada, um pouco mais ao sul, mas as chuvas começariam umas 23h no Porto. 

Seria preciso pedalar uns quatro quilômetros até o carro, mas ventava e a magrela quase não saía do lugar. Foram 15 longos minutos até avistar o motorhome. Dentro do trailer, com o aquecedor ligado, veio a dúvida: ir para onde? O aplicativo indicava o próximo estacionamento a uns 30 quilômetros, na praia. Não sei por que achei a ideia boa e fui para lá.  

No caminho, alguns pedaços de árvores já estavam no chão. Mandei uma mensagem para a dona do motorhome sobre o perigo daquilo que estava acontecendo e ela respondeu que estava tudo bem, era só não ir para a beira do mar. Quando disse que era justamente o que estava fazendo e inclusive já estava chegando, ela me mostrou toda a sua sagacidade perguntando se tinham outras autocaravanas por lá. "Duas", avisei. "Então está bem", ela respondeu, tranquila. 

Parei na frente da maior delas, um baita de um motorhome branco com duas janelas de cada lado. Avistei um casal simpático de senhores jogando baralho; ele sem camisa, ela com carinha de quem fazia bolo de vó. "Então está bem", eu pensei. Desliguei tudo e fui dormir. 

Durante a madrugada o motorhome balançava, fazia barulho, mas eu me lembrava dos dois senhores jogando baralho e me sentia seguro. Quando acordei no dia seguinte, me deparei com árvores caídas, um céu azul e nenhum sinal daquele casal que me transmitiu tanta segurança.

VENEZA PORTUGUESA

Saí dali em direção a Aveiro, a 77 quilômetros do centro de Porto. Na noite anterior, soube que o furacão tinha entrado no continente por ali. Quem não vai dirigindo, como eu, pode ir de trem a partir do Porto, em um bate-volta. 

Estacionei o trailer em uma rua contígua à Praça Humberto Delgado, coração do lugar. A praça fica em cima do Canal Central, de onde saem gôndolas, lá chamadas de moliceiros, para um passeio bucólico. 

Cada moliceiro – o nome remete ao uso da embarcação para apanhar moliços, uma espécie de alga – tem pintura exclusiva que retrata cenas do cotidiano. O tour pela Ria de Aveiro dura 45 minutos e custa 10 euros (R$ 44) por pessoa. 

Foi lá que comi o primeiro de muitos travesseiros de Sintra, originário da cidade homônima. Trata-se de um doce feito de massa folhada recheado com creme de amêndoas. Polêmica: achei melhor do que o tradicional pastel de nata. Outro doce típico são os famosos ovos moles de Aveiro, feitos apenas com gemas, água e açúcar. A parte externa é crocante e branca, como um suspiro, e por dentro um recheio macio, da cor da gema. 

As doçarias costumam vender caixas fechadas e garantem que os doces duram por 15 dias, sem refrigeração. Uma boa opção de presente para quem está no fim da viagem. Se estiver no começo dela, outra boa compra é a flor de sal: a cidade é conhecida por sua produção salina.

NOITE NO MONUMENTO

O dia terminou nas ruínas romanas de Conimbriga, localizada na freguesia de Condeixa-a-Velha, a 1 hora do Porto e a 20 minutos da nossa próxima parada, Coimbra. Trata-se de uma das maiores e mais importantes ruínas romanas do país, habitadas ente os séculos 9º a.C. e 8º d.C.. Os romanos teriam chegado ali entre os séculos 2º e 1º a.C..

A maior parte da visita se dá ao ar livre, percorrendo áreas com amplas colunas e belos mosaicos. O auge da visita é a Casa dos Repuxos, um exemplo de residência romana aristocrática. 

O ingresso para entrar nas ruínas custa 4,50 euros (R$ 20), mas o estacionamento é gratuito. Foi ali que parei o motorhome e dormi tranquilamente, em meio a um sítio histórico.

Mais conteúdo sobre:
Portugal [Europa]Motorhome

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 3: tensão nas ladeiras da Universidade de Coimbra

Na chegada à cidade universitária de Portugal, carro emperrou e patinou nas ladeiras

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Meu grande erro em Coimbra foi tentar chegar o mais próximo possível do Paço das Escolas com o motorhome. É ali que fica o conjunto arquitetônico da Universidade de Coimbra, patrimônio da Unesco e objetivo da minha visita naquele dia. Sinais do fracasso não faltavam. Logo na entrada da cidade, em uma subida nível 2 (todas as classificações aqui são livres), o veículo, que não tem tração nas quatro rodas, emperrou e começou a patinar. Literalmente parei o trânsito para sair da situação, de ré.

O problema é que fui além e emperrei metros acima, em ruas apertadas de subida de nível 4. Foram momentos de paciência, que deixaram uma lição: o motorhome não foi feito para explorar as cidades, mas para chegar até elas. Depois, vá de bicicleta, a pé ou de Uber.

Após suar nas ladeiras da cidade, cheguei à universidade, uma das mais antigas do mundo. Foi fundada em 1290, mas em Lisboa, com o nome de Estudos Gerais, e transferida para Coimbra em 1537 pelo Rei D. João III.

Desde então, ela está exatamente no mesmo lugar, com vista para o Rio Mondego. Há várias áreas abertas aos visitantes e tours com preços variados, de acordo com a área visitada. O programa mais completo, de 2h30, custa 12,50 euros (R$ 55), passa pelo Paço Real e pela galeria de História Natural, entre outros. E também pelo grande destaque: a Biblioteca Joanina.

Construída no século 18, é considerada uma das mais espetaculares do mundo. Além do acervo de mais de 40 mil exemplares – incluindo um volume original de Os Lusíadas, de Luís de Camões –, sua arquitetura foi criada especialmente para preservar os livros. Por mais 1 euro (R$ 4,50), é possível visitar também a torre, que oferece uma vista panorâmica da cidade. Mais: uc.pt/turismo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 4: o leitão e o mosteiro

No caminho até o Mosteiro da Batalha, o restaurante Rei dos Leitões oferece leitão à bairrada delicioso

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Nesse dia, concretizaria um sonho: conhecer o Mosteiro da Batalha, patrimônio da Unesco na região de Estremadura e Ribatejo. Mas o grande (e único) evento do dia estava reservado para o caminho: o restaurante Rei dos Leitões, em Mealhada, 86 quilômetros distante do famoso mosteiro. 

Se não tivesse recebido a dica antes, pararia ali só pelo nome carismático. A casa, de 1947, serve diversos pratos típicos da região, mas o mais famoso é o leitão à bairrada – o melhor da minha vida. O processo de preparo é minucioso: o bicho é assado por pelo menos duas horas, a 300 graus, em um forno com cascas de eucalipto, e servido com batatas.

Comi e repeti, acompanhado por vinho tinto da região. Gastei 60 euros (R$ 260), uma fortuna para padrões locais. Do restaurante, voltei cambaleando para o motorhome, onde me entreguei a um sono pesado até o começo da noite.

Já restabelecido, peguei o volante e cheguei ao Mosteiro com noite fechada para mais uma grata surpresa. O Mosteiro tem iluminação especial, dessas de baixo para cima, o que reforça sua imponência. Encostei o motorhome no estacionamento, aos pés da edificação, e passei a noite observando o prédio que atrai meio milhão de turistas por ano ao coração do país.

No dia seguinte, fui eu também um desses turistas que vão ver de perto o prédio que foi construído ao longo de 150 anos, desde o fim do século 14. A construção segue os estilos gótico e manuelino. O ingresso custa 6 euros (R$ 26; mosteirobatalha.gov.pt), mas se você for visitar outros monumentos da Rota do Patrimônio, como o Mosteiro de Alcobaça e o Convento de Cristo, em Tomar, há um ingresso conjunto de 15 euros (R$ 66).

A essa altura, já estava claro que meu plano de seguir até a Espanha estava abortado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 5: rodar com fé por Fátima e Alcobaça

Santuário de Fátima e Mosteiro Santa Maria de Alcobaça fazem parte de um roteiro de fé em Portugal

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Depois de visitar o Mosteiro da Batalha, pisei fundo para dar conta de Fátima e Alcobaça.

Fátima é uma cidade católica clássica, com romeiros de muitos locais e agenda extensa de penitência. Confesso que esperava mais do Santuário de Fátima, mas a verdade é que a basílica de Aparecida é muito mais suntuosa, por isso a decepção. De hora em hora, há a celebração de uma pequena liturgia; veja mais informações no site fatima.pt. O caminho para o monte onde os meninos pastores tiveram as visões de Nossa Senhora de Fátima a partir de 1915 estava lá. Mas o frio e o cansaço da viagem me encontraram e resolvi voltar para o veículo.

De lá, foram mais 30 minutos até chegar a Alcobaça, que também abriga um mosteiro. O Santa Maria de Alcobaça, patrimônio da humanidade cuja construção começou em 1178, é o primeiro ensaio da arquitetura gótica em Portugal. A fachada atual, contudo, é do século 18. No centro do mosteiro, há um jardim repleto de laranjeiras. Acesse o mosteiroalcobaca.gov.pt para ver uma relação de tours temáticos incluídos no ingresso; programe-se.

Gostei particularmente não só do prédio, mas da Praça 25 de Abril, em frente ao Mosteiro, com lojas de produtos de decoração típicos, que usam a chita de Alcobaça (tecido florido em algodão) para confeccionar roupas, calçados e até abajures. A mais portentosa é a Made in Alcobaça – para ter uma amostra, veja no Instagram @madeinalcobaca.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 6: do camping aos clássicos de Lisboa

Partindo do Porto, descemos de motorhome até a capital portuguesa

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Reservei um único dia para Lisboa, e tive a sensação de que apenas vislumbrei os potenciais da cidade. Não faça como eu e separe ao menos três.

Recebi a recomendação de evitar pernoitar com o motorhome pela cidade por motivos de segurança. Duvidei da dica, mas não contrariei e procurei um camping privado, o primeiro e único de toda a viagem. Estacionei no Lisboa Camping & Bungalows, na entrada de Lisboa, e paguei 20 euros (R$ 90) por serviço completo: estacionamento, estrutura para limpeza, água limpa e para banhos.

 

De lá, pedi um Uber e fui conhecer os pontos turísticos clássicos, como Torre de Belém, Alfama, Baixa, Chiado, Mosteiro dos Jerônimos, Catedral da Sé, Castelo de São Jorge e outros. Se você tem pouco tempo na cidade, o Viagem criou um roteiro sob medida aqui: bit.ly/lisboarapida. Para quem já conhece a cidade e busca algumas novidades, confira outras sugestões aqui: bit.ly/lisboanews.

À noite, rodei pela cidade de metrô, que fica aberto até 1h da manhã. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 7: na casa de D. Pedro I em Queluz

Cidade encostada em Lisboa abriga palácio onde primeiro imperador do Brasil nasceu e morreu

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

A história do Brasil está intimamente ligada a Queluz, de onde saiu toda a coroa portuguesa em 1807 com destino ao Rio de Janeiro, fugindo de Napoleão Bonaparte. A cidade fica encostada em Lisboa e abriga o palácio homônimo. Ali nasceu, em 1798, o infante Dom Pedro, primeiro imperador brasileiro (D. Pedro IV para os portugueses). De volta a Portugal, ele morreu em 1834, no mesmo quarto de seu nascimento.

Antiga casa de verão da família real portuguesa, o palácio passou por obras a partir de 1747 para se transformar em residência oficial.

Ali a corte portuguesa viveu até a partida para o Brasil. Além de ver o quarto de D. Pedro e sua cama com dossel dourado, os visitantes descobrem outros aposentos que exalam opulência e os belos jardins, com 16 hectares. No site do palácio (bit.ly/jardimqueluz) há um mapa com a sugestão de roteiro para seguir e os principais pontos de visitação. Dá para visitar o palácio e os jardins (10 euros; R$ 44) ou só os jardins (5 euros; R$ 22).

 

De lá fui para Cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente europeu, a 17 km do centro de Sintra. Cheguei a Roca no meio da tarde, com muito frio (o vento ali nunca dá trégua), e consegui parar o motorhome em um dos pontos mais deslumbrantes de toda a viagem, no fim da estrada que dá de frente para o Oceano Atlântico e para as falésias.

Desci para explorar o entorno e descobri que a atração tem um forte, um restaurante e um posto de turismo onde você pode pegar um certificado de que visitou o local. Mas o destaque é mesmo a paisagem – por isso voltei ao carro, liguei o aquecedor e assisti ao pôr do sol de camarote. No fim do dia, já escuro, esquentei os restos de um bacalhau comprado no porto, preparei um pouco de nata e abri um vinho tinto do Alentejo. Ali, de frente para o horizonte, fechei feliz uma viagem incrível, satisfeito com tudo o que vi e vivi.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.