Zurab Kurtsikidze/Efe/EPA
Zurab Kurtsikidze/Efe/EPA

Desconstruindo estereótipos

Copa ofereceu uma nova perspectiva sobre a Rússia

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 03h00

Tem sido uma constante na Copa da Rússia. Em reportagens ou em conversas com amigos que foram ver os jogos in loco, nunca ouvi tanto a frase “me surpreendi com a Rússia”. A fama de sérios, frios e avessos a estrangeiros dos russos caiu por terra, e muita gente que não foi para a Copa já planeja ver de perto belezas não só de Moscou e São Petersburgo, mas de cidades como Kazan, Samara e Sochi, que já nos parecem tão familiares e atraentes.

Desconstruir estereótipos é uma das coisas mais bacanas de viajar. E nada como um grande evento esportivo, como Copa ou Olimpíada, para estimular as pessoas a olharem determinados destinos de modo diferente. O clima é festivo, há muito mais turistas nas ruas, as pessoas estão mais abertas, mais receptivas a viajantes de outras nacionalidades. Como o objetivo principal não é visitar pontos turísticos, mas assistir aos jogos, não há grandes expectativas. E baixas expectativas significam mais chances de se surpreender. 

É claro que visitar esses destinos em um período, digamos, normal, será bem diferente. E qual o problema? Salvador e Recife são cidades completamente diferentes durante o carnaval e fora dele, e igualmente encantadoras nas duas épocas (ao menos para quem, como eu, é folião de carteirinha). New Orleans não é a mesma durante seu famoso festival de música e no resto do ano. 

Fui dezenas de vezes ao Rio, mas a energia que emanava da cidade durante a Copa, em 2014, e na Olimpíada, em 2016, era algo completamente diferente. Nunca foi tão fácil fazer amigos, influenciar pessoas e se divertir sem muito esforço. Até o simples fato de caminhar pela rua era sinônimo de encontrar uma multidão de sorrisos (a não ser quando o assunto é 7 a 1, mas vamos deixar isso para lá).

Aliás, os gringos também se encantaram com o Brasil nesses eventos esportivos. Descobriram que nosso País tem samba, caipirinha e feijoada, mas também tacacá, frevo, tapioca, múltiplas culturas e mais cenários deslumbrantes do que apenas Copacabana e o Cristo Redentor. Puderam, finalmente, ir além dos nossos estereótipos. Uma pena que não soubemos aproveitar para finalmente nos transformar em um destino com números relevantes no turismo internacional (mas vamos deixar também isso para lá). 

Não sei como será essa relação na Copa de 2022, no Catar, um emirado no Oriente Médio com 1,6 milhão de habitantes, temperaturas acima dos 40 graus e polêmicas a respeito de direitos humanos. Seria interessante, num momento de tanta desinformação e ódio gratuito, que o fato de a Copa ser realizada num país muçulmano ajudasse a desconstruir estereótipos religiosos. A ver.

Não é preciso esperar um grande evento, contudo, para repensar as próprias certezas em uma viagem. Veja: não se trata de ser inocente a ponto de cair na conversa de golpistas – sim, eles existem no mundo inteiro. Mas de não se fechar a ponto de perder a oportunidade de interagir com os moradores daquele lugar. Descobrir sua cultura. Os sabores daquela terra. E, mais do que se atentar às diferenças, perceber semelhanças.

“Ah, mas quer dizer que a Rússia é perfeita agora?”, você pode estar questionando. Claro que não. Aliás, não acho que haja uma só nação perfeita, todas têm suas questões particulares, sejam elas governamentais, sociais, climáticas. 

Visitar os Estados Unidos, por exemplo, não significa ser a favor do tal muro ou de separar crianças de seus pais. Ir para Cuba não é apoiar o comunismo. Viajar a um país não é concordar com um governo, mas uma forma de descobrir uma cultura, se aprofundar na História e, principalmente, aprender. 

Pessoas não são seus governos.

Mais conteúdo sobre:
Copa do Mundo Rússia 2018 [futebol]

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.