Desencanto olímpico

Nosso incansável viajante permanece em Londres, recuperando-se das fortes queimaduras que sofreu por exposição exagerada ao sol na ilha de Malta. Ele mesmo não consegue compreender como isso foi acontecer.

O Estado de S.Paulo

10 Julho 2012 | 03h08

"Como vocês sabem, my friends, passei longos períodos no Saara líbio, sob comando do General Richard O'Connor, em perseguição ao valente Rommel, a raposa do deserto. É claro que, ao fim e ao cabo, logramos derrotá-lo, mas, mesmo sem nenhuma destas pastas para proteger-me do sol, não sofri sequer uma queimadura. Não tenho dúvida de que os leitores mais ferinos vão atribuir essa queimadura recente à minha idade provecta. Pois eu diria que foi por pura imprudência minha. Fui à praia sem as camisetas que uso por baixo do terno e não levei meu bowler hat. Anyway, as dores estão passando e já me sinto pronto para novas aventuras."

A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles: o senhor vai ver a Olimpíada em seu país? Aliás, em quantos Jogos o senhor já esteve?

Mauro Castro Ribeiro, Vitória

"In fact, my friend, não me agradam muito os Jogos Olímpicos, exceto pelas manifestações comoventes de vitoriosos e derrotados - e essas veem-se melhor na televisão do que ao vivo. Não foi sempre assim, é verdade. No tempo dos bons esportistas, que não viviam como máquinas de treinamento, eu acompanhei várias competições e, believe me, participei de grandes esbórnias com atletas que competiram - e ganharam - mesmo de ressaca, no dia seguinte.

O ser humano, infelizmente, tem essa incompreensível propensão para transformar lazer e diversão em tensão e angústia e hoje é muito raro encontrar atletas felizes e descontraídos, exceto nos países menos competitivos, como nosso querido Brasil, onde quase tudo é festa e até as damas da noite eventualmente têm orgasmos legítimos.

Eu disse a Pierre que temia por esse desastre (N. da R.: Pierre de Fredy, o Barão de Coubertin, idealizador da Olimpíada moderna). Quando ele me afirmou, grandiloquente, que 'o importante é competir', eu logo vi que tinha exagerado no armagnac e estava dominado por um sonho incompatível com a alma humana. Os jogos, enfim, se tornaram uma disputa desleal de valores medíocres como o nacionalismo e, mais tarde, a bilionária batalha de marcas globais.

Não me tome por um velho ranzinza, my friend. Observe, however, que, por anos, quase todas as medalhas de ouro nos esportes femininos foram ganhas por, argh, homens. Ou não tinham testículos aquelas nadadoras da Alemanha Oriental? Ou não produziam testosterona aquelas fundistas da União Soviética que bem poderiam chamar-se Bóris ou Piotr?

Hoje, I'm afraid, é essa praga do doping que estraga a competição. Como sempre, os mais ricos, que têm acesso às melhores tecnologias de ocultação de seus 'motores envenenados', são os que têm maiores chances. Anuncia-se para breve o doping genético. Ou seja: bastará uma celulazinha e qualquer cidadão poderá ter a força de Hércules ou a velocidade de Carl Lewis. É, unfortunately, o fim do fairplay.

Quanto a Londres, my friend, aposto que será uma grande festa porque temos muitas nacionalidades convivendo em harmonia e não as desprezamos (exceto, of course, por alguns cretinos mais realistas que a rainha). Ainda não sei se vou ficar por aqui ou partir para algum país exótico onde esteja aberta a temporada de birdwatching. Esse, sim, um esporte que me agrada porque não rompe músculos, nem provoca qualquer espécie de decepção. Porque, para mim, as you know, o importante não é competir, mas viajar."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7

TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.