Ricardo Freire/Arquivo Pessoal
Ricardo Freire/Arquivo Pessoal

Despedida de aeroporto

Você deve se lembrar: antigamente, qualquer viagem de avião era motivo para a família e os amigos irem em caravana ao aeroporto para despachar o passageiro

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 03h40

Viagens de avião não eram corriqueiras, e as passagens eram tão caras (sobretudo ao exterior), que só justificavam viagens mais longas. Viajava-se à Europa para passar trinta dias. Ou mais, até: férias se acumulavam, licenças eram tiradas para aproveitar melhor o investimento. 

(Quando fui pela primeira vez à Europa, há 32 anos, a passagem aérea a Madri custava US$ 900 e uma noite em albergue, US$ 4. Hoje de vez em quando aparecem passagens com o mesmo preço de 1985, mas uma cama em hostel custa pelo menos oito vezes mais.)

Levar o viajante ao aeroporto não era só uma questão de consideração. Era saudade antecipada, mesmo. Viajar trinta dias significava ficar trinta dias praticamente sem comunicação com os mais chegados. Telefonemas eram feitos só em caso de emergência – a não ser que você recebesse a dica de algum orelhão com defeito de onde se fazia ligação internacional com ficha local. 

As notícias eram enviadas por cartões-postais, e chegavam ao Brasil depois do viajante. Comecei a escrever sobre viagem no dorso de postais, durante um mochilão de quatro meses pela Europa. Comprava um bolo de postais, sentava num café e ia escrevendo minhas impressões sobre o lugar. Os melhores insights de um cartão eu acabava repetindo no cartão seguinte, e quando chegava no último postal, o texto estava tipo assim, digamos, quase praticamente ótimo.

Havia também a Posta Restante, algo que hoje só resiste naquele verso de Futuros Amantes, do Chico Buarque. Amigos e familiares podiam mandar cartas em seu nome para as agências centrais dos Correios de qualquer cidade. Sim: eu já fui à agência dos Correios no Louvre e perguntei: “Tem carta pra mim?”. (E tinha.) Em Amsterdã, recebi uma fita cassete com a voz da família inteira – e uma gravação, direto da TV, da Fafá de Belém cantando o Hino Nacional na reportagem sobre o funeral do presidente Tancredo Neves.

Hoje as pessoas pensam duas vezes antes de pegar trânsito ou encarar a muvuca de aeroporto. A falta de comunicação durante a viagem não existe mais: além de abarrotar o Facebook e o Instagram de fotos durante as férias, os viajantes hoje continuam 24 horas conectados ao WhatsApp. Ninguém mais espera que seus amigos se abalem até o aeroporto para se despedir. A não ser em situações especiais.

Pois bem, querida leitora, estimado leitor. Trouxe vocês até o aeroporto porque, depois de 8 anos, estou de partida deste espaço. Preciso de mais tempo para meus projetos pessoais e, com tristeza, tenho que me despedir. Muito obrigado, não só pela companhia, como também pelos excelentes quebra-cabeças de viagem que vocês me deram a chance de solucionar. Me diverti muito e aprendi muitíssimo nessa convivência. E tenho certeza de que, como bons viajantes do século 21, vamos continuar em contato. Boas viagens!

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