Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Dia 1: city tour pelo centro, pôr do sol e cozinha mineira

O primeiro dia é para percorrer as igrejas repletas de tesouros sacros, conhecer museus e repor as energias com pratos típicos

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 04h25

City Tour: Arquitetura e igrejas

 

Uma das oito igrejas tombadas pelo Iphan na cidade, a Santíssima Trindade é uma graciosa construção da primeira metade do século 18, de estilo barroco-rococó. Acaba de ser restaurada, motivo da vivacidade do azul e do branco que colorem sua fachada. Não fica aberta em tempo integral. 

Foi em frente a ela que encontramos o guia Vicente Silva. Concretizadas as apresentações, ele desatou a falar sobre os elementos maçônicos da igreja, o conflito bem x mal do barroco e sobre a arquitetura colonial que nos cercava.

Assim descemos a Rua Santíssima Trindade, uma das mais bonitas da cidade. O contínuo de suas casas setecentistas coloridas é cenário de novela. “Quando o pessoal vem gravar aqui, proíbem a passagem de turistas”, diz Vicente, mostrando no caminho as antigas aldravas nas casas mais ricas, as particularidades de cada janela e a diferença de um solar (moradia) e um sobrado (moradia e comércio).

Igreja Matriz de Santo Antônio

Era informação atrás de informação e, entre papos e cliques, chegamos à Igreja Matriz, a mais antiga da cidade, construída entre 1710 e o início do século 19 – quando Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi chamado para refazer a fachada em rococó. Lá dentro, o que reluz são 482 quilos de folhas de ouro. Há santos, quadros barrocos, colunas jônicas e um altar com influências gregas e orientais. 

Desvie o olhar para o teto de madeira com forro pintado e note o órgão na parte superior, trazido de Portugal em 1798. Sentados ali, ouvimos histórias sobre os santos usados para esconder pedras preciosas nos tempos da mineração (os “santos do pau oco”).

Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

Nosso roteiro terminou na Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, erguida e frequentada pelos negros escravizados no século 18. Com um sombreado e agradável pátio à sua frente, a construção está na parte mais central da cidade. Seu interior, entre pedras, madeira, santos e pinturas, também recebeu folhagem de ouro, algo incomum nas igrejas dos escravos.

Conta Vicente que, desejosos de ter um altar tão belo quanto o da Matriz, devotos traziam, escondidas, pepitas de ouro das minas que eram obrigados a explorar. Como nenhum homem branco entrava no local (e o padre nunca revelou o segredo), o altar – que está em restauração – pôde ser ornado.

 

História e Arte: Museus imperdíveis

O personagem que dá nome à cidade e que se tornou mártir pelas mãos do movimento republicano no século 19 tem, claro, um lugar garantido em sua homenagem. A estátua de bronze de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, está na Rua Padre Toledo. 

Esqueça a imagem de túnica branca e cabelos compridos. O retrato sacralizado do alferes (e dentista informal) foi uma das maneiras de os republicanos o transformarem em herói. Na cidade, o monumento mostra um homem de trajes militares e chapéu.

A estátua está ao lado da casa onde morou Padre Toledo. Tombado pelo Patrimônio Histórico, o solar do século 18 é uma das construções tiradentinas que mais preservam características arquitetônicas coloniais. Dentro dela, note os forros pintados nos nove cômodos, algo incomum em residências particulares da época. Abre de terça a domingo, ingressos a R$ 10. 

 

Coleção do pintor

Na Praça das Mercês, uma placa de azulejos pequenina num casarão anuncia a chegada ao Instituto Mário Mendonça. Trata-se de uma casa particular, com um jardim interno que faria inveja até a Padre Toledo. Seu dono é o pintor carioca Mário Mendonça, mais um entre tantos que se encantou com a cidade e quis estreitar laços.

Ele não mora ali, mas deixou em exposição permanente as telas que produziu e as obras de arte que adquiriu ao longo da vida – cerca de 1.400 peças de Dalí, Degas, Picasso e outros. Entre as obras de Mário, há retratos de amigos e de figuras conhecidas de Tiradentes. Os temas sacros, contudo, são os que mais aparecem em suas produções. Grátis (com hora marcada).

 

Fim do Dia: Pôr do sol e teatro

Pôr do sol

 

O atendente da papelaria foi incisivo. “Tem de assistir ao pôr do sol no morro de São Francisco, é lindo. É o fundo de tela do meu computador”. Fiz questão de ir. O que eu ainda não sabia é que já conhecia o morro da telinha: ele apareceu, em 1998, em uma cena da minissérie Hilda Furacão – aquela em que a personagem de Ana Paula Arósio dá um beijo apaixonado (e vai um pouco além disso) no jovem padre Malthus, vivido por Rodrigo Santoro. Dá para assistir online.

A subida é pequena e asfaltada. Depois do pôr do sol, tome um café na Doce Diferença ou na Casa do Sino, que tem no cardápio o gourmet e bem avaliado café da semente defecada pelo jacu (R$ 15 a xícara).  

Marionetes

Na Casa de Boneco, há 29 anos na Rua Direita, todos se divertem com os personagens do “construtor do imaginário” Bernardo Rohrmann, o Nado, mestre que dá vida a marionetes de madeira, canos de PVC e retalhos. A primeira gargalhada veio com o boneco fotógrafo clicando a plateia, um a um; depois chegaram marionetes dançantes, apaixonadas, briguentas… No carnaval, alguns dos bonecos desfilam na rua. Segundo Nado, trata-se do menor bloco do mundo – no tamanho de seus integrantes e no trecho percorrido. Ingressos de R$ 20 a R$ 30.

Onde comer: Mineirices à mesa

Raiz Mineira

 

Ter começado o farto roteiro gastronômico por aqui foi certeiro. O negócio é a culinária regional, com torresmo na caneca (R$ 15) e feijão tropeiro (R$ 78 para dois). Mas pode incluir risoto de abobrinha, gorgonzola e filé (R$ 94 para dois) ou tilápia grelhada (R$ 49, individual). Para fechar, doce de leite quente na panela (R$ 18) ou petit gateau de pão de mel com doce de leite (R$ 21). Tudo preparado pelo casal Ezequiel Souza, ex-chef do badalado restaurante Tragaluz, e Ana Carolina Barbosa, uma das líderes do turismo de Tiradentes. Juntos, decidiram há três anos investir num espaço que, apesar de pequeno, acolhesse moradores e turistas com preços acessíveis. 

Pacco e Bacco

Romântico, investe na cozinha contemporânea – experimentei um risoto com camarão grelhado, farofa de castanha do Pará e risoto de ora-pro-nóbis e alho poró (R$ 89, individual). A carta de vinhos inclui opções veganas e mineiras – segundo o dono e sommelier Francisco Rodriguez, o Pacco, a produção é realizada em Cordislândia, usando a técnica da dupla poda. 

Luth Bistrô

Uma opção romântica-descontraída, tem à frente da cozinha Luiz Cesar Costa, o Luth, dono do local. Seu cardápio, à la carte, inclui sugestões de harmonização com cervejas da marca TremBier, cujo festival anual ocorre, este ano, de 1º a 5 de maio. Telefone: (32) 99966-2819.

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