Dia 4 - O mergulho

Perto de uma das margens do Sapó, a voadeira encosta em um bar flutuante e chega, enfim, o aguardado consentimento: podem nadar...

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h09

Não há como garantir horários precisos em uma viagem feita ao sabor dos humores de um rio em pleno período de cheia, cujo nível sobe um pouco por dia, e que tem como principal objetivo distribuir carga por cidades ribeirinhas que não contam com acessos aéreo ou terrestre. Primeiro porto oficial do M. Monteiro em seu trajeto rio acima, a cidade de Fonte Boa chegou no meio da madrugada. 

Os trabalhadores até fazem barulho ao carregar a tralha toda para fora da embarcação. Mas são 3 horas da manhã, a cama convida a mais algumas horas de preguiça antes do grande momento, prometido para o quarto dia: a hora de nadar em águas amazônicas. 

Assim, de Fonte Boa apenas ouvimos falar. O porto seguinte, Jutaí, é uma cidadezinha de menos de 18 mil habitantes cujo centro visitamos, caminhando, em uns 15 minutos. O que tínhamos para fazer ali de verdade era embarcar na voadeira e seguir em direção a um certo Rio Sapó, mais um dos milhares de afluentes do Solimões que nem são registrados nos mapas. 

Perto de uma das margens do Sapó, a voadeira encosta em um bar flutuante e chega, enfim, o aguardado consentimento: podem nadar. As águas são pretas como as do agora distante Rio Negro, e frias só ao primeiro contato. Estava feito. Eu tinha nadado na Amazônia pela primeira vez. 

Naquele mesmo dia, ainda a caminho de Jutaí, aceitei o convite da tripulação para ir de voadeira até a casa de um pescador. Amigo da família Monteiro há dez anos, Cristóvão mora com os parentes em uma comunidade onde até a escola é flutuante. Como todas as construções por ali, sua casa foi erguida sobre grossas toras de tronco de árvore, que funcionam como boias e fazem o imóvel subir e descer com as águas.

Enquanto pesava três mantas já limpas de pirarucu, com cerca de metro e meio cada, Cristóvão explicou que o excesso de água da atual temporada de chuvas estava prejudicando a pesca. Este ano, dizia, não chegaria nem perto dos 685 peixes capturados na temporada passada; até aquele momento, sua conta estava em 300 pirarucus pescados nas últimas semanas.

Os 55 quilos de peixe custaram R$ 330 – e foram servidos para o barco inteiro, em pedaços fritos e empanados, no jantar do dia seguinte.

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