Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Dia 6 - Os ticunas

Era nosso último dia de navegação, e ele estava inundado da expectativa pela visita à comunidade indígena...

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h07

Turista quando não está em museu, parque, praia, monumento ou restaurante, certamente está interrompendo o curso natural da vida cotidiana de alguém. Foi a nossa voadeira encostar junto de uma vila ticuna para a reunião de mais de 30 pessoas que ocorria em um barracão no centro da comunidade dispersar. 

Era nosso último dia de navegação, e ele estava inundado da expectativa pela visita à comunidade indígena. Não éramos esperados, mas fomos recebidos com uma confortável cordialidade. Já que a assembleia, cujo tema era a volta às aulas na escola da vila, havia sido irremediavelmente interrompida, o cacique se ocupou de nós por alguns instantes. Depois, pediu ao agente comunitário de saúde, que se apresenta como Washington porque sabe da dificuldade que temos em pronunciar seu nome de batismo, para nos mostrar a vila. 

Algumas mulheres com seus bebês e várias crianças nos acompanharam curiosas. Não falam português, mas reconhecem a máquina fotográfica e fizeram sinais de assentimento para os retratos. Por algum tempo brinquei de fotografar um grupo de meninos e mostrar-lhes o resultado. Escondiam o rosto ao se reconhecerem no visor da câmera. 

Washington abre a escola, uma sala única com carteiras e lousa onde estudam 30 crianças divididas em dois turnos. A comunidade tem 12 casas e nelas vivem 84 pessoas. Plantam banana e mandioca, produzem farinha numa casa de farinha coletiva e vendem na cidade de São Paulo de Olivença, que é uma metrópole para o padrão do Alto Solimões: tem 36 mil habitantes. 

No centro da vila estava sendo construído um salão. Segundo Washington, a comunidade está há tempos precisando de um bom espaço para realizar a festa de moça nova, uma das principais celebrações da etnia ticuna. É um ritual de debutantes feito para as pré-adolescentes de 12 anos. No passado, incluía arrancar à unha todos os cabelos da cabeça da moça. Hoje, as meninas ainda ficam carecas, mas com a ajuda de tesoura e lâmina.

Deu tempo de nadar no afluente antes de pegarmos a voadeira para voltar a São Paulo de Olivença. As águas pretas estavam bem altas e com uma suave correnteza. Procurei estabilidade agarrando galhos da copa de uma árvore, que estava com boa parte do seu tronco submerso. 

Na volta, a surpresa que consolidou aquele como o melhor dia da viagem. Um cardume de botos rosa começou a nadar ao nosso redor. O primeiro deles surgiu diante da lente enquanto eu tentava com a câmera enquadrar pela milionésima vez naquela semana a paisagem de céu, árvores e água. Vi o animal, gritei para dar o alarme sem saber se podia gritar. Calamos o motor barulhento da voadeira, e os animais bailaram ao nosso redor por bons 10 minutos. 

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