José Nazal Soub/SECOM/SEMA Prefeitura de Ilheus
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Adriana Moreira
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Dia da marmota

Moradores do Nordeste ainda sofrerão as consequências das manchas de óleo no mar; você pode ajudar participando de vaquinhas virtuais para compra de equipamentos de limpeza

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 05h00

Todo dia um 7 a 1 diferente. É assim que vive o meio ambiente no Brasil – e, por consequência, o turismo. Sim, eu já escrevi sobre como ambos andam conectados. Da última vez, foi por causa das queimadas que devastaram áreas protegidas no Norte e Centro-Oeste do País. Não deu tempo nem de respirar e outra tragédia se espalhou, em forma de petróleo cru, que tinge as praias do Nordeste.

Celebramos as chegadas das empresas low cost, que prometem movimentar o mercado da aviação nacional. Os voos diretos para Europa e Estados Unidos no Norte e Nordeste. Bom para o público brasileiro viajar, mas também uma oportunidade maior de trazer turistas e, consequentemente, movimentar a economia nacional. Afinal, foi por isso que isentamos os norte-americanos do visto para vir ao Brasil, quebrando a regra de reciprocidade (recentemente, foi anunciado que indianos e chineses também não precisarão mais de visto).

Medidas como essa, no entanto, só trazem resultados expressivos quando acompanhadas de uma campanha efetiva de promoção turística. O Brasil tem como prós belezas de sobra para atrair visitantes, mas também uma porção de contras. E petróleo nas praias não é exatamente boa propaganda.

O visto não era o único impeditivo para estimular os gringos a “visit and love us”: há a barreira do idioma, a imagem da segurança no Brasil lá fora, a distância e, agora, manchas nos nossos cartões-postais. É muito mais fácil (e barato) para um norte-americano ir ao Caribe – onde, mesmo quando ocasionalmente os furacões passam devastando tudo, a resposta do governo é rápida, vide o exemplo das Bahamas (bit.ly/irparabahamas).

Não precisamos imitar ninguém para atrair visitantes. Quem conhece o Nordeste sabe que os atrativos da região não estão apenas na paisagem, mas nas pessoas. No barqueiro simpático que leva às piscinas naturais contando causos. No pescador que puxa a rede de manhã, ajudado por turistas curiosos que também vão comprar o peixe fresco para o almoço. No vendedor de queijo coalho que dá desconto pra quem compra três. No garçom que traz a cerveja gelada pisando descalço na areia quente.

Para essas pessoas, a praia é seu meio de vida. Seu escritório, por assim dizer. Imagine que você chegou para trabalhar e sua mesa está coberta de óleo. Você procura alguém para ajudar com a limpeza, mas não há ninguém disponível – todos parecem absortos em suas próprias funções. Daí você resolve limpar sozinho, mas, quanto mais limpa, mais sujeira aparece. Até quando você conseguiria?

Moradores e voluntários limpam as praias com as mãos, mas não há romantização nisso. Nós, turistas, podemos escolher outro lugar para passar as férias. Podemos conseguir o dinheiro do pacote de volta, segundo esclarece o Procon. Podemos substituir o peixe do cardápio. Podemos ficar só na piscina do resort. Quem vive ali, não – e sabe que o óleo que mancha as praias mancha também o turismo. 

No fim de semana, o Ibama anunciou que não foram encontradas novas manchas no litoral nordestino. É uma esperança. Mas, mesmo quando a última mancha de óleo for removida, as consequências ainda serão sentidas por essa população. Na pele, na pescaria, no prato.

O que fazer para ajudar? Há grupos de voluntários recebendo doações para comprar equipamentos adequados para ajudar na limpeza, e você pode participar dessas vaquinhas virtuais. Eu também não cancelaria uma viagem já marcada – movimentar a economia local é uma forma de ajudar (mas, claro, tomaria as precauções necessárias para não haver prejuízos à saúde). Como não me canso de dizer, ser turista também tem suas responsabilidades. 

Sinto-me repetitiva, como no filme Feitiço do Tempo (popularmente conhecido como Dia da Marmota). Na história, o personagem de Bill Murray acorda todas as manhãs no mesmo dia – o dia que ele mais odeia. Mas quem sabe se, assim como aconteceu com o personagem de Bill Murray, com a repetição excessiva não chegue o aprendizado. E, no final, turismo e meio ambiente terminem juntos e felizes.

*Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com.

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