Jorge Luis Plata/Reuters
Jorge Luis Plata/Reuters

Dia dos Mortos 'de raiz' no interior do México

Nem desfile, nem fantasia: celebração tradicional privilegia os altares, a casa aberta a desconhecidos e o almoço em pleno cemitério

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2018 | 04h50

Um desfile com caveiras e esqueletos gigantes, carros alegóricos e centenas de atrizes no papel de Catrina, a tradicional personagem mexicana que representa a morte. Foi o que pedi para ver quando combinei com amigos mexicanos de passar o Dia dos Mortos com eles. Uma larga risada e um sonoro “não” foi a resposta que obtive.

A explicação que me deram para a recusa foi que aquele desfile nada tem a ver com a cultura do país. Havia sido criado um ano antes, após o sucesso do filme 007 Contra Spectre (2015), em que a sequência de abertura “retrata” as comemorações do Dia dos Mortos na Cidade do México. O desfile temático mostrado no filme é uma invenção. 

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O primeiro desfile fora das telas ocorreu em 2016 e foi bastante criticado pela população em geral, justamente por não ser algo legítimo. No ano passado, as críticas se reduziram com a inserção de elementos culturais, como dança e música, de distintas regiões do México. Neste ano, será realizado no sábado (27), das 11 às 16 horas, no Paseo de la Reforma, uma das principais avenidas da capital mexicana.

Já para quem quiser viver uma experiência realmente local, o melhor é sair da metrópole e ir para o interior. As pequenas cidades de Oaxaca, um dos Estados com tradições indígenas mais fortes do país, se enchem de altares, flores, velas e músicas em homenagem ao mortos e estão entre as mais bonitas para se visitar nessa época do ano. 

Optei por Tepoztlán, uma cidade de 40 mil habitantes no Estado de Morelos e a cerca de 80 quilômetros da capital mexicana, mais pela conveniência da proximidade do que por ser um destino famoso de Dia dos Mortos. Cheguei na tarde de 1.º de novembro, poucas horas antes das principais celebrações – a virada para o dia 2 é o momento mais importante do Dia dos Mortos –, e me deparei com a rua repleta de adultos e crianças fantasiados e com o rosto pintado de caveira, além de artistas em pernas de pau.

Em seguida, vi um cartaz na parede de uma casa que alertava que as fantasias também não fazem parte da tradição mexicana. São uma importação cultural dos Estados Unidos, onde o Dia das Bruxas é celebrado na mesma época. “Não às fantasias. Não ao Halloween. Festejemos com orgulho nossas tradições mexicanas”, dizia o cartaz.

Altares abertos, comida e acolhimento

E as tradições locais são muitas. A principal é o altar em homenagem aos mortos. Há quem monte o seu dentro de casa, há quem faça na calçada e há os da prefeitura, na praça principal. De noite, todos saem para vê-los. O clima é afetuoso: alguns deixam as portas de casa abertas para que desconhecidos entrem para observar o altar. Outros distribuem na rua bebidas e doces, também para desconhecidos, em uma bonita partilha.

Segundo a lenda, é no Dia dos Mortos que os antepassados voltam para visitar familiares (você assistiu à animação da Disney Viva! A Vida é uma Festa?). O altar é montado para que achem suas casas. São colocadas fotos, objetos e alimentos preferidos dos mortos – um livro, um violão, um copinho com tequila, café, cigarro... Há caveirinhas de açúcar e o pão de morto, decorado com tirinhas de massa imitando ossos.

Os altares ficam montados por uma semana, período em que os mortos permanecem na Terra. Depois, os alimentos são jogados fora – e dizem que o sabor deles se vai antes, já que foram degustados pelos visitantes do outro mundo.

Também é costume ir ao cemitério à noite e durante todo o dia 2, não apenas para decorar os túmulos dos parentes com os alaranjados cravos-de-defunto, mas para ficar o dia todo por ali. Os familiares usam como enfeite também o “papel picado”: folhas coloridas amarradas em um barbante, como bandeirinhas de festa junina, com desenhos de caveira recortados).

Essa decoração, aliás, é vista em todo o país, como se fosse Papai Noel no Natal. Nas fachadas das casas, nos shoppings, nos restaurantes, nos condomínios e, já no aeroporto, você é recebido com ela. 

Nada mórbido

Ao cemitério, as pessoas levam também seu baldinho de cerveja. Abrem as latinhas e ficam ali conversando ao lado do túmulo da família. Algumas com caixa de som, outras pagam para músicos profissionais – que ficam circulando pelo cemitério – cantarem a canção favorita de seu parente morto. Na entrada, a comunidade se junta para preparar o almoço e cadeiras são colocadas no corredor principal, onde todos se sentam para comer. É um costume da população mais simples. 

A visita ao cemitério pode parecer um passeio mórbido, mas é nela que você vai mergulhar mais profundamente na cultura local. O clima é de tranquilidade e saudade, não de tristeza.

Já tinha ouvido falar que o Dia dos Mortos é o Carnaval do México. Na verdade, são muito diferentes. A comemoração por lá parece ser silenciosa e traz paz, apesar das ruas cheias e barulhentas. Impera um sentimento de partilha. Talvez a celebração esteja mais próxima do Natal, com a reunião de famílias e crianças cantando músicas da época. 

“À meia-noite, as caveiras saem para passear. Muito alegres, pegam seus carros, suas bicicletas e também seus patinetes”, cantam os pequenos com rostos pintados de caveira. Nesse momento, a linha que separa a tradição mexicana da americana parece tênue demais, e a mistura de costumes pode deixar, para o estrangeiro, a data ainda mais atraente e mágica.

 

Outras festas e curiosidades:

Celaya

Cidade no Estado de Guanajuato, conquistou em 2016 o recorde no Guinness Book de maior concentração de pessoas fantasiadas de Catrina no mundo. Foram 865 participantes. A parada de Catrinas é a atração local – este ano, em 1º de novembro.

Aguascalientes

Recebe todos os anos o Festival Calaveras, com várias atividades culturais em homenagem ao artista José Guadalupe Posada, que criou a figura da Catrina em 1912 – originalmente batizada de La Calavera Garbancera. De 26 de outubro a 4 de novembro.

Oaxaca

É conhecida pelas Muerteadas, que são como um carnaval com representações teatrais e desfiles ligados ao Dia dos Mortos. Outro destaque na programação é a Feira Nacional Artesanal do Dia dos Mortos, no Calçadão Turístico da cidade, de 26 de outubro a 4 de novembro.

San Luis Potosí

A festa é conhecida como Xantolo, que inclui tradições das comunidades pré-hispânicas e vai de 31 de outubro a 2 de novembro. Há vigília com orações e rituais para reafirmar laços de identidade, união, espiritualidade e hospitalidade.

COMO CHEGAR

Do terminal de ônibus Taxqueña, na Cidade do México, partem ônibus regulares para Tepoztlán – são cerca de 85 km. Com a empresa OCC, custa desde 99 pesos mexicanos (R$ 20). O terminal é ligado ao metrô. 

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