Diário de um cotidiano nas alturas

De São Paulo a Miami, Londres e Buenos Aires em uma semana, sem perder o pique para ir ao teatro, ver museus e fazer compras. Aqui, um comissário de bordo conta detalhes de seu trabalho

O Estado de S. Paulo

24 Junho 2014 | 16h18

Pouco tempo no destino turístico e a necessidade de escolher entre tantas atrações porque não vai dar para ver tudo. Tal pressão é coisa do dia a dia na vida dos comissários de bordo. E, enquanto você dorme ou vê um filme no voo, eles fazem o quê? Até reunião de trabalho, para se ter ideia.

Aos 38 anos, o comissário Paulo Vieira Neto é chefe de cabine da TAM, onde trabalha há 16 anos. Atua também como examinador da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o que significa monitorar procedimentos técnicos dos colegas tripulantes.

Neste diário, ele conta curiosidades do trabalho nas alturas e dá dicas de três cidades pelas quais passou. Em uma semana.

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DIA 1

Acordei bem cedo e vesti meu uniforme de chefe de cabine da TAM. Sem trânsito, cheguei rapidamente ao aeroporto de Guarulhos, onde encontrei outros 13 colegas, tripulantes também escalados para o voo para Miami, nos Estados Unidos, para o nosso briefing. Esse é o nome que damos à reunião para discutir as diretrizes da companhia – qualidade do atendimento, metas e procedimentos de segurança.

O voo diurno para Miami é sempre mais cheio que o da noite. Dá para notar a empolgação dos passageiros. Para mim, as horas passam literalmente voando, já que considero meu trabalho divertido, embora exija bom preparo físico. O sobe e desce dos aviões, a movimentação na aeronave e o auxílio com bagagens e carrinhos não são tarefas leves. Nunca um dia é igual ao outro. A tripulação é sempre diferente e isso modifica nossa dinâmica.

Assim que pousamos, nos dirigimos ao hotel, em Miami Beach. O dia ainda estava claro. Dava tempo para curtir um pouco a areia macia da praia, ao lado do hotel.

Amo minha profissão, pois ela me dá oportunidades raras, como tomar café da manhã em São Paulo, almoçar sobre o Amazonas (durante o voo) e jantar em Miami. Isso conforta a saudade do Brasil.

 

DIA 2

No dia seguinte, depois do café, encontrei três colegas da tripulação e alugamos um carro para um tour pela cidade. Hora das compras. Uma queria roupas para a filha; outro, maquiagem para a mulher. Já o copiloto precisava de materiais para a festa de aniversário do sobrinho. Aproveitei a caravana para comprar tênis novos. No retorno ao hotel, tínhamos ainda três horas para nos preparar para o voo de volta a São Paulo, que decolaria de Miami à meia-noite. Aproveitei para tomar um green tea latte, chá verde quente batido com leite que recomendo a quem passar por Miami. Revigora as energias.

O voo para São Paulo estava cheio. Durante o trabalho, costumamos bater papo com colegas sobre o que fizemos ao longo do dia. Um casal de passageiros nos disse que estava completando 20 anos de casados. Servi duas taças de champanhe a eles, que ainda pareciam muito apaixonados.

 

DIA 3

Nos dois dias de folga que tive durante a semana, aproveitei para ir ao médico, fazer aula de pilates e sessão de acupuntura. Na segunda-feira, me preparei para fazer o meu voo preferido: Londres, na Inglaterra. Tinha de me apresentar no aeroporto de Guarulhos às 22 horas. Como de costume, me reuni com a tripulação. Em Guarulhos, é possível encontrar vários amigos tripulantes que se preparam para outras viagens.

No voo para Londres havia uma criança desacompanhada, de apenas oito anos, que viajava para visitar o pai. Nesses casos, um tripulante é responsável por monitorá-la durante toda a viagem até que o pequeno passageiro seja entregue a uma pessoa responsável. Após a decolagem, fizemos os procedimentos de segurança e servimos o jantar. Ajustei a temperatura da cabine para deixar o ambiente confortável.

O nosso turno de trabalho é dividido durante o voo e nos planejamos para que todos tenham, pelo menos, quatro horas de descanso. Temos um espaço reservado na aeronave com camas, as crew rest. Costumo levar soro fisiológico para o nariz, para minimizar o efeito da baixa umidade do ar na cabine.

Pouco antes do pouso, servimos o café da manhã e conferimos os materiais para a tripulação que assumiria o voo seguinte. Fizemos uma rápida reunião sobre o voo. Pousamos e fomos recebidos com vento e chuva forte, apenas para confirmar a reputação do clima da minha cidade favorita.

 

DIA 4

No hotel, descansei por três horas e depois saí para pegar o metrô – tube, como dizem os ingleses. Estava ansioso para assistir ao musical Charlie and the Chocolate Factory (charlieandthechocolatefactory.com), conhecido no Brasil como A Fantástica Fábrica de Chocolate (foto). Tinha reserva para o espetáculo, que é uma festa para olhos e ouvidos. As canções são lindas, os figurinos vistosos e os atores extraordinários.

O espetáculo me emocionou muito, pois costumava assistir ao filme pela televisão quando era criança. Aliás, o teatro estava repleto de crianças. Todas calmas e educadas. O povo inglês é muito educado, ninguém usa celular durante o show e nem deixa lixo ao sair.

Saí e fui jantar com um casal de amigos ingleses em um restaurante perto do teatro, em Covent Garden. O bairro londrino é repleto de bares e lugares excelentes para comer bem. Voltei para o hotel cansado. Estava feliz e ansioso para escrever sobre o musical para uma revista para a qual colaboro com artigos sobre teatro e cinema.

 

DIA 5

Os hotéis na Europa geralmente têm bom isolamento acústico – mesmo perto do aeroporto, não é possível ouvir nem o barulho dos aviões. Passei na academia para colocar a ginástica em dia e parti empolgado rumo à Galeria Tate Modern (tate.org.uk; foto), onde havia uma exposição de artistas surrealistas como Max Ernst, Salvador Dalí e Paul Delvaux. Depois, visitei o Museu Charles Dickens (dickensmuseum.com), que é na própria casa onde viveu o escritor de Oliver Twiste Grandes Esperanças, um dos meus favoritos na adolescência. Para o almoço, nada de fish and chips, o peixe com batata frita típico de Londres. Escolhi salmão e salada com quinoa para manter a forma.

Cheguei ao hotel e me preparei para o voo de volta, que foi muito tranquilo. Passamos pela conhecida e rigorosa inspeção de segurança. Partimos do aeroporto de Londres e flutuamos de volta para São Paulo. Flutuar é o nosso termo para descrever um voo sem turbulências. Sempre estamos mais felizes nos voos de retorno ao Brasil, ansiosos para voltar para casa.

 

DIA 6

Acordei duas horas antes para chegar ao Aeroporto de Guarulhos às 7 horas. A rota do dia era Buenos Aires, capital do tango, das empanadas quentinhas e do inigualável alfajor. Durante o embarque, um casal de passageiros em lua de mel não conseguiu marcar os assentos juntos. Eles chegaram ao check-in quase em cima da hora. Conseguimos remanejá-los com a colaboração de outros passageiros – foram então acomodados lado a lado durante o voo, que durou 2h40. Detalhes como esses fazem a diferença para prestar um bom atendimento.

Servimos o café da manhã e muitos clientes assistiram a um filme no sistema de entretenimento. O casal que recebeu nossa ajuda aproveitou o serviço de duty free para trocar presentes.

Às 11h35 pousamos em Buenos Aires. Tínhamos o dia inteiro de descanso. Depois do almoço, cochilei à tarde e me exercitei na academia do hotel. Na hora do jantar com os colegas, fomos para Puerto Madero, um dos bairros mais modernos da cidade, muito bonito, ótimo para passeios noturnos e com excelentes opções de restaurantes.

 

DIA 7

Tomei o café da manhã com os colegas. É comum as tripulações se encontrarem nessa hora para colocar o papo em dia. Seguimos para o aeroporto Ministro Pistarini (conhecido como Ezeiza) 2h30 antes da decolagem. Como o aeroporto é um pouco distante da cidade, é importante sair com bastante antecedência para não ter problemas.

O voo de retorno foi bem tranquilo. Servimos um lanche da tarde aos passageiros. A duração do voo, neste retorno, é sempre mais curta em razão dos ventos que sopram a favor da aeronave. Portanto, sempre temos de ser mais ágeis no serviço de bordo para atender a todos os clientes.

Pousamos em São Paulo às 20 horas, com chuva leve e, mais uma vez, sensação de dever cumprido.

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