Todd Heisler/The new York Times
Todd Heisler/The new York Times

Diferentão, changüí nem parece música cubana

Gênero musical típico do leste de Cuba é predecessor distante da salsa e tem sua espinha dorsal nos graves da marímbula

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

Ao contrário de outros gêneros de música cubana, o changüí se destaca por si mesmo, tanto do ponto de vista estilístico como geográfico. “Você só ouve o changüí no leste do país”, disse Ned Sublette. De maneira que nos aventuramos a passar por pastos secos de gado do centro de Cuba para chegar ao calor tropical e montanhoso do sudeste e acabar num minúsculo estúdio de gravação.

O som é fundamentalmente diferente e não usa o padrão de ritmo chave que marca outros gêneros de música cubana. Portanto, ele soa “não cubano” para quem ouve. “Sinceramente, muitas pessoas não gostam de como o changüí soa, não conseguem captar”, disse-me Benjamin Lapidus, que escreveu o primeiro livro sobre o gênero. O gênero é considerado predecessor do son montuno que é também considerado predecessor da salsa. “O changüí é para Cuba o que o blues é para a música americana”, disse ele.

Entre os instrumentos do estilo estão o tres (parecido com uma guitarra), os tambores da conga e um tipo de reco-reco parecido com um ralador de queijo – soavam como pingos de chuva em diferentes tonalidades e velocidades, mas no final num crescendo se transformou numa tempestade.

O instrumento que torna o changüí único, porém, é a marímbula. Ela parece uma caixa grande. Na frente há uma fileira de lâminas de metal sobre buracos cavados na madeira. O músico encaixa e coloca as pernas de modo a percurtir as lâminas de metal, cuja vibração acontece dentro da caixa e sai pelos buracos com uma nota de um grave profundo. A marímbula fornece a linha de baixo e atua como um som de base, mas um som também efêmero e distante, conferindo ao changüí uma atmosfera onírica. 

No curso da nossa viagem pela ilha, nossa compreensão da música cubana se aprofundou, incluindo instrumentos e gêneros sobre os quais nunca tínhamos ouvido. E me fez pensar nos shows de fins de noite e festas nas ruas que perdemos, todos os sons que ainda desconhecemos nessa ilha que explode de sonoridade. Uma frase de Cimafunk veio à minha mente quando meu avião decolou: “Quanto mais você procura sempre terá uma compreensão maior da música cubana.”

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