Filipe Araújo/Estadão
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Dinheiro para viagem: breve história

Poucos de vocês têm idade para lembrar, mas até o final dos anos 1980 a política de controle cambial impedia que brasileiros tivessem cartão de crédito internacional. Os poucos brasileiros que podiam viajar eram obrigados a sair do Brasil com os bolsos recheados de dólares cash.

Ricardo Freire, O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2015 | 00h00

Esses dólares, por sua vez, não eram comprados legalmente. O contribuinte só tinha direito a comprar mil dólares por ano, e ainda assim mediante apresentação de uma passagem internacional devidamente emitida. O resto você comprava com o doleiro do seu agente de viagens. O governo fingia que era possível fazer uma viagem internacional de trinta dias com mil dólares, e o viajante fingia que conseguia.

A liberação dos cartões internacionais (e da compra livre de moeda estrangeira) só viria com, pasme (ou não!), Fernando Collor. O brasileiro podia enfim viajar ao exterior sem se sentir um cidadão de segunda classe. 

Em meados da década de 1990, alguns bancos começaram a oferecer a possibilidade de fazer saques em moeda local em caixas automáticos no exterior. Nas minhas viagens, isso significou um belíssimo upgrade: numa Europa pré-euro, era possível obter moeda local sem perder tempo (e dinheiro) com casas de câmbio, que naquela época eram cheias de pegadinhas. A dupla cartão de crédito + cartão do banco passou a ser o meu kit completo de dinheiro para qualquer viagem. 

Os anos 2000 trouxeram o cartão pré-pago – que logo caiu no gosto dos viajantes brasileiros, receosos das desvalorizações do real entre o momento da compra e o vencimento da fatura do cartão de crédito. 

Em dezembro de 2013, porém, o cartão pré-pago sofreu um golpe mortal: passou a ser taxado em 6,38% de IOF, a exemplo do cartão de crédito e do saque internacional.

Resultado: o brasileiro voltou a viajar com os bolsos recheados de dólares, como se fosse 1980 e o dinheiro não tivesse procedência legal. Cintos internos para esconder dinheiro voltaram a ser um item do vestuário do viajante. Passamos a ser alvo de quadrilhas na Argentina e Orlando, que sabem que viajamos com dinheiro vivo. E, numa conjuntura de ajuste fiscal, não há a menor chance de que este imposto dos cartões venha a ser revogado tão cedo.

Se você me vir numa casa de câmbio, pode ter certeza de que estou fazendo pesquisa de campo para leitores. Pessoalmente, continuo com o meu kit cartão de crédito + cartão de banco para saques. Os 6,38% são uma taxa de conveniência que eu pago para mim mesmo.

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