Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

Diz a lenda...

Página a página, cidade a cidade, vive-se uma história particular a cada parada. Comece em Hanau, onde nasceram os Irmãos Grimm

ADRIANA MOREIRA / KASSEL, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2013 | 02h17

O caminho se mostra ora largo, ora estreito e sinuoso. Vilarejos parados no tempo surgem na janela. Depois, bosques. Florestas. Campos nos mais variados tons de verde. E castelos, rios, casinhas lindamente decoradas, pontes cobertas de tricô, flores. A sensação é a de estar dentro de um conto de fadas, percorrendo ao vivo as páginas de um livro. Neste caso, no entanto, a história não começa com "era uma vez", mas com "é uma vez". Estamos no tempo presente, na Rota dos Contos de Fadas alemã.

O trajeto de 600 quilômetros entre Hanau (a cerca de 20 quilômetros de Frankfurt) e Bremen, no Estado de Hesse, leva para o coração de uma Alemanha autêntica, de schnitzels e pretzels, de casas enxaimel e jardins floridos. A comunicação não é sempre fácil - nem todas as atrações turísticas têm folhetos ou explicações em inglês (ou algum atendente que fale o idioma). Boa vontade e simpatia, por outro lado, não faltou. Obra de alguma fada madrinha, talvez?

Este ano, percorrer a rota criada em 1975 ganha contornos especiais. Eventos e exposições comemoram os 200 anos da primeira edição dos Contos Infantis e Domésticos dos Irmãos Grimm, publicada em dezembro de 1812 (a programação completa está em grimm2013.de/en). O caminho, afinal, passa por cidades importantes na história de Wilhelm (1786-1859) e Jacob Grimm (1785-1863): eles nasceram em Hanau, cresceram em Kassel e reuniram fábulas em cidades próximas, contadas de geração em geração.

Independentemente da efeméride, muitas das cidades realizam festivais que têm os contos de fadas como temas. Caso do Brothers Grimm Fairytale Festival, que ocorre em Hanau entre maio e julho e traz à vida diversos personagens famosos.

Na estrada. Meu conto de fadas particular pelo Estado de Hesse teve dez capítulos (ops, cidades) e durou oito dias. Ao invés de uma bruxa malvada, meu maior inimigo foi o tempo. Por causa dele, não vi tudo o que queria. Mas assim são as fábulas: há sempre um desafio a ser superado.

Minha carruagem percorreu Autobahns, as vias rápidas do país, e estradinhas estreitas. Na falta da trilha de pãezinhos de João e Maria (Hansel e Gretel, na versão alemã), o GPS foi quase uma fada madrinha. Mas se você não se sente confortável para dirigir nas intimidadoras Autobahns, a dica é chegar via Frankfurt e seguir de trem. Kassel, no centro da rota e com boa infraestrutura, é ótimo ponto de apoio: dali, pode-se alugar um carro e percorrer apenas as estradas locais.

Fui princesa em Sababurg, onde dormi no quarto mais alto da torre mais alta, no Castelo da Bela Adormecida. Subi nos aposentos de Rapunzel e até segui o flautista de Hamelin - correndo, quem sabe, o risco de desaparecer entre as colinas, tal qual as crianças da cidade.

Mas uma hora o encanto acaba, e o meu teve seu fim não à meia-noite, mas por volta das 21 horas, quando embarquei no voo de volta para São Paulo. Mas tive meu final feliz: a reportagem que você lê aqui.

Os contos dos Grimm ajudaram na unificação alemã, em 1870. "Eles provaram a similaridade linguística e folclórica da região", diz Bernhard Lauer, diretor do Museu dos Irmãos Grimm

O Museu dos Contos de Fadas dos Irmãos Grimm, em Schauenburg, é apenas uma casinha simples, repleta de quadros, livros e pinturas, quase todas de Albert Schindehütte, um artista da região com uma visão moderna e particular das fábulas.

Mas o espaço pequeno não impede o museu de realizar diversos eventos temáticos - a maior parte deles, de contação de histórias para crianças. Logo na entrada, a curiosidade fica por conta do conto Die Wassernix (A Sereia; leia ao lado). Ele está de cabeça para baixo, instalado em um painel sobre um espelho d'água.

Bom de prosa, Gerhardt Nenntwich, que gerencia o espaço, conta que os Irmãos Grimm tiveram várias fontes para suas histórias. Dois deles eram de Schauenburg: uma mulher conhecida como Jovem Marie e um ex-soldado na casa dos 60 anos, Friederich Krausen.

Enquanto a Marie são atribuídas as narrativas de Chapeuzinho Vermelho (que também constam na obra do francês Charles Perrault) e Branca de Neve, as histórias de Krausen tinham temas mais brutais.

Uma delas é Os Músicos de Bremen(leia na página 14), que faz referência direta à irrelevância dada aos idosos naquele tempo. Ele mesmo se sentia assim: teria trocado vários de seus contos por peças de roupas.

Dá para viajar de Hann. Münden a Bremen de bicicleta, seguindo o Rio Weser. A rota tem 500 km, mas não é preciso percorrer tudo. As distâncias entre vilas não passam dos 20 km

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