Felipe Mortara/AE
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Do céu ao chão pela Estrada da Morte

Vamos aos fatos. A antiga estrada que liga La Cumbre (a 4.700 metros de altitude) a Coroico (1.100 metros), na Bolívia, não é chamada de "Camino de La Muerte" à toa. Suas curvas são traiçoeiras, sem proteção lateral, e o calçamento, como em quase todo o país, é precário. Placas póstumas e cruzes pelo trajeto não deixam dúvidas sobre as dezenas de acidentes fatais que aconteceram por ali. Tanto que, desde 2007, o tráfego de veículos pesados foi transferido para uma nova rodovia - o que transformou a antiga via em uma das principais atrações turísticas do país.

FELIPE MORTARA / LA PAZ, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2012 | 03h10

Por uma razão simples: trata-se de um dos percursos de mountain bike mais radicais - e lindos - do planeta. Sem exagero algum. Durante os 64 quilômetros de descida, os dedos chegam a calejar de tanto puxar as alavancas dos freios. Só que o visual compensa a cada metro.

Quando a van com as bikes estaciona em La Cumbre, após quase uma hora de viagem desde La Paz, o cenário é tipicamente andino. Rodeados por montanhas nevadas, cada ciclista testa a magrela e cria afinidade com os freios a disco - mais potentes que os de pastilha - num raro e bem conservado trecho de asfalto.

Atenção às explicações dos três guias. Capacete sempre na cabeça, luvas nas mãos - mesmo no verão, é provável que esteja nevando neste ponto. É bom pegar o jeito logo, já que a famosa estrada começa depois de 7 quilômetros percorridos. O cartão de visitas é uma neblina densa, que, ao mesmo tempo em que tenta disfarçar os penhascos escondidos a cada curva, deixa um clima sombrio.

A velocidade de descida passa dos 40 quilômetros por hora - os mais lentos. Os destemidos podem chegar a 70 quilômetros por hora. Só depende de você. E dos freios. De tempos em tempos, os guias param para dar dicas e contar histórias, que, em geral, são assim: "Vocês sabem por que esta se chama 'Curva dos Ingleses'? Sim, porque aqui caiu um ônibus cheio de turistas ingleses".

O chão é de terra, esburacado. A vegetação ganha ares de floresta tropical de altitude, parece Mata Atlântica. Em pouco tempo, você vai entender porque foi obrigado a vestir uma ridícula roupa impermeável desde o começo da descida. Não tardam a cair as primeiras gotas, a umidade fica evidente ao cruzar e ser alvejado por pequenas cascatas.

Casaco e luvas já não se fazem necessários e podem ser guardados na van. Após uma hora e meia de descida, todos transpiram e a umidade traz um bem-vindo refresco. Ao mesmo tempo em que se pega o jeito da bike e do percurso, o trajeto relembra os motivos do seu nome. Tem a curva dos alemães e a dos israelenses, com placa em hebraico e estrela de Davi, além de muitas cruzes salpicadas nas sinuosidades.

A pressão nos tímpanos e o calor intenso e abafado dão a certeza de que se está chegando ao fim do desnível de 3.600 metros verticais. As curvas diminuem em quantidade e intensidade, retas maiores e terra mais batida.

Depois de cerca de 5 horas, o tour termina em uma piscina de hotel. Banho quente e um generoso bufê esperam os sobreviventes, que, entre garfadas e goles de cerveja Paceña gelada, parecem não perceber o tamanho do risco que correram.

A volta a La Paz, morro acima pela mesma estrada, chega a ser mais apavorante que a descida. O motorista da van parece ignorar os perigos e bate um papo animado com o passageiro ao lado, como se brincasse. "Agora sim, estes turistas estão com medo!"

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