Do muezim ao desejo de ser moderna

Canto religioso está entre tradições do mítico país, que ganhou o coração dos turistas e busca lugar na UE

Natália Zonta, O Estado de S.Paulo

10 Março 2009 | 01h49

Nas páginas do guia de viagem, tudo fica muito simples. Do Império Bizantino à atual República da Turquia, um resumo que inclui mudanças na religião e no idioma. A variedade de cenários é traduzida em fotos da lunar Capadócia, das praias banhadas pelo Mar Egeu e das piscinas de Pamukkale. A Turquia retratada no papel seduz o viajante. Mas nenhuma teoria consegue prepará-lo para vivenciar as tradições de uma terra marcada por reviravoltas dignas de best-sellers.

 

Éfeso remete à antiguidade

Por isso, antes de seguir às próximas páginas, saiba que cada cenário descrito vai além do que sua imaginação consegue criar ou do que pode ser traduzido em palavras. São incontáveis as sensações provocadas por esse país de 70 milhões de habitantes. Esse dom de surpreender, só no ano passado, atraiu 25 milhões de visitantes, 13% a mais que em 2007, segundo o departamento de turismo local.

 

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A porta de entrada é Istambul. Para os europeus, chegar por lá é rápido, já que uma parte da maior cidade do país está, de fato, no Velho Continente. Para os brasileiros, a viagem se tornará mais fácil a partir do dia 29 deste mês, quando a Turkish Airways inaugura a rota entre São Paulo e Istambul, com escala em Dacar, no Senegal. Os voos partirão da capital duas vezes por semana, sempre às segundas e quintas-feiras.

A notícia por si só já funciona como incentivo para começar a desvendar a Turquia pela mítica cidade cortada pelo Estreito de Bósforo. Mas há muitas outras razões, uma delas óbvia: o território guarda uma pequena síntese das transformações ocorridas na Turquia nos últimos séculos. Basta observar alguns de seus cartões-postais com um pouco mais atenção.

 

Museu Santa Sofia narra Império Bizantino

No Museu Santa Sofia, adornos do Império Bizantino (527- 565) dividem parede com inscrições islâmicas da época do domínio otomano (1299-1922). Tudo isso coexiste com a onipresente imagem de Mustafá Kemal Paça (1881-1938), o Atatürk, pai dos turcos na tradução literal, responsável por transformar o país em um Estado laico e com um idioma peculiar. Graças a ele, o turco passou a ter sonoridade árabe e a ser escrito com o alfabeto romano um pouco modificado.

Adaptação

A ânsia modernizante de Atatürk não ficou na reforma da língua. Os principais pontos turísticos ganharam verniz. Alguns foram totalmente reformados. Por causa dessas iniciativas do passado, hoje os capítulos atuais da história turca são escritos também com o turismo.

Na medida em que europeus, americanos e latinos desembarcam, o país se abre para o mundo e mostra que, apesar de ter 99% da população muçulmana, vive sem nenhum resquício de radicalismo. É verdade que muitas mulheres ainda cobrem os cabelos, mas é opcional. Jeans justos e maquiagem são um tanto comuns entre os jovens de cidades grandes.

A adaptação ao Ocidente é genuína e impulsionada pelo desejo de transformar o país em potência. Há anos a Turquia espera ser aceita pela União Europeia. As negociações estão em constante avanço: só no ano passado, o país recebeu do bloco 540 milhões de euros como incentivo às nações candidatas - nova eleição só deve ocorrer após 2014.

Ver de perto os resultados das cifras que movem o crescimento turco é mais válido - e prazeroso - do que procurar entendê-los à distância. Tratados sobre a população muçulmana não dizem nada se comparados ao chamado lamentoso do muezim. E debater o avanço do turismo não chega aos pés de um mergulho nas águas verdes do Egeu. Ao chegar lá, entre as lojas do Grande Bazar ou nas ruínas de Éfeso, você se pegará a procurar adjetivos para passar adiante suas experiências.

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