Dois dias em um camping de nativos no Quênia

No programa, sustentabilidade, cultura local e o tradicional safári

Susan Glairon, The New York Times, Quênia, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2008 | 00h55

Caminho cuidadosamente no ar fresco da noite, iluminando a trilha de pedras com uma lanterna de querosene. De repente uma figura se aproxima, um braço esticado, seu cobertor xadrez vermelho balançando suavemente ao vento. "Sabão", ele diz, enquanto dirige o braço estendido a mim. O aparecimento do homem masai quase me assusta e demoro um instante para perceber o que ele está oferecendo. Pego dois sabonetes do tamanho dos de hotéis e ele imediatamente se retira para a escuridão. Continuo o caminho até o banheiro e, ao abrir a porta, encontro outra lanterna iluminando os arredores. O banheiro é limpo, tem vaso sanitário - um conforto raro no Quênia - e descarga. Depois de colocar os sabonetes perto da pia do lado de fora, em uma prateleira feita de galhos retorcidos, inclino a cabeça e miro o infinito céu estrelado enquanto a água fresca escorre entre os meus dedos. Estes momentos de silencioso fascínio são comuns durante a minha estada de duas noites no Oldarpoi Maasai Safari Camp, um camping permanente perto da Reserva Nacional Masai Mara. Trata-se de um dos maiores parques para safáris desta parte da África, ainda bastante desconhecido da maioria dos viajantes. Um amigo queniano indicou um guia, que, por sua vez, recomendou o camping de 16 hectares, aberto em dezembro de 2006. O lugar é propriedade da comunidade masai local, que também cuida de seu funcionamento. Foi equipado com confortos de uma casa, como chuveiro quente, cama com lençol e travesseiro, cobertor, tela contra mosquitos e terraço com poltronas. Uma estação geradora mantém o suprimento de luz e refrigeração e permite que telefones celulares e máquinas fotográficas sejam recarregados. As instalações modernas do camping contrastam severamente com as vilas masais. Nelas, pessoas vivem em enkajis, cabanas que dividem com os animais. As crianças caminham descalças pelas ruas cheias de esterco. A pobreza agravada pela seca tem reduzido drasticamente os rebanhos. Das 45 mil pessoas vivendo na área, 78% ganham menos de US$ 1 por dia, de acordo com pesquisa da I See Masai Development Initiative (www.iseemaasai.org). A missão da organização é capacitar economicamente a população masai, defender a educação e os direitos das mulheres. Um dos fundadores do camping, Nelson Ole Reiyia, tem origem masai, mas fez curso universitário e tem várias viagens no currículo. Com a vida oscilando entre a infância nessa região pobre e o cotidiano urbano em Nairóbi, ele espera que o camping ajude a reduzir a pobreza local de forma auto-sustentável. Os masais são muito dependentes do gado para sobreviver e, como as pastagens tradicionais têm perdido espaço para áreas de conservação da vida selvagem, a população têm dificuldades para se sustentar. ESPETÁCULO No camping, o staff serve o café da manhã (chá, ovos, salsichas e torradas), arruma as camas, fecha com cadeados os zíperes das tendas e toma conta do acampamento enquanto visitamos o parque para ver zebras e outros animais. À noite, cozinham o jantar e, enquanto comemos, acendem a fogueira. Então, sentam-se conosco para contar fatos de suas vidas. No segundo dia da minha visita tive a oportunidade de conhecer a enkang, a propriedade onde alguns integrantes do staff cresceram. É outra forma que os masais encontraram para ganhar dinheiro: cobrando entrada. Não estava certa de querer assistir a um espetáculo criado para turistas. Mas as pessoas estavam tão alegres e ansiosas por compartilhar informações que me senti, de repente, muito feliz por estar em meio a uma cultura que ainda não deu lugar aos tempos modernos. Para começar, os homens encenaram uma dança de boas-vindas na qual pulam o mais alto que podem. Em seguida, as mulheres apareceram cantando, pegaram nas nossas mãos e nos conduziram para a vila. O anfitrião, Samuel Ngotiek, de cerca de 20 anos, nos levou para dentro de uma enkaji e, assim que os olhos se acostumaram à escuridão, mostrou o local onde os bezerros dormem - dentro de casa, com os moradores. De volta à luz do sol, uma "loja" montada para vender produtos: sobre cobertores estão jóias masai, correntes e facas. Pude sentir a ansiedade deles para nos vender alguma coisa enquanto assistíamos a um grupo de homens fazendo fogo sobre um tabuleiro de madeira. Comprei apenas um item, um colar de casamento masai. E eles imediatamente me agradeceram por ter ido. SAIBA MAIS O Oldarpoi Maasai Safari Camp (00--254-721731927) fica em Sekenani, a 230 quilômetros de Nairóbi e a 10 minutos de carro do portão principal do Parque Nacional Masai Mara. A diária custa US$ 70 (R$ 166) por pessoa, com três refeições incluídas. O camping ainda não é muito conhecido nem aparece em guias de viagem. A Pure Destinations Tours and Safaris (www.pure-destinations-safaris.com) faz o transporte terrestre até o local. Outra opção é contratar o guia Johnstone Kirimi (00--254-721683700; jkirimifamily@yahoo.com). Há também pacote completo que inclui safári, hospedagem e refeições, a US$ 150 (R$ 356) por pessoa por dia.

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