Dormindo na passarela

Excessivamente bronzeado pelo sol da ilha de Malta, que também tornou ainda mais claros os pelos de Trashie, a raposa das estepes siberianas, sua mascote, mr. Miles agradece ao leitor Péricles Jr., de Paraguaçu Paulista, que, após ler a crônica da última semana sobre Paris atestou a existência de uma outra Lutécia a pouco mais de vinte quilômetros da cidade onde vive. "Ainda não tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente", desculpou-se o grande viajante. "Mas esse é o segredo dos peregrinos: sempre há alguma coisa nova a descobrir."

O Estado de S.Paulo

03 Julho 2012 | 03h09

A seguir, a correspondência da semana:

Querido mr. Miles: o senhor tem acompanhado essa história de hotéis ligados a estilistas famosos como Bulgari e Versace? Qual é a sua opinião sobre eles? Rosa Maria Menezes Ribas, por e-mail

"Well, my dear, creio que a recente e crescente onda de hotéis com nomes, avais ou o próprio projeto de personalidades que se tornaram grifes mundiais é mais uma bem urdida estratégia de marketing. Para uma certa classe de viajantes dormir nos aposentos de Armani em Dubai ou Milão significa algo como vestir-se ou perfumar-se à maneira do estilista de Piazenza. O que, by the way, não deixa de ter um fundo de verdade, já que estive como Giorgio em seu hotel no Golfo Pérsico e percebi, na decoração, a elegância de seu estilo minimalista.

Por outro lado, dear Rose, se os hotéis que levam esses nomes se chamassem, como de ordinário, Plaza, Miramar, Belavista ou Palace, esteja certa de que o preço da diária custaria dois terços mais barato.

No meu tempo, que vem a ser um bocado de tempo, os hotéis eram erguidos por construtores ou famílias ligadas ao ramo de hospedagem. Hoje, my God, eles não nascem numa prancheta. São, I presume, costurados, bordados e alinhavados por homens e mulheres que, anteriormente, dedicavam-se à arte de vestir, perfumar e embelezar as pessoas.

Não tenho a menor dúvida que marcas como Bulgari, Versace, Ferragamo, Renzo Rosso (da Diesel), Missone e Moschino, entre outras que já enveredaram pelo mundo da hospedagem, jamais emprestariam seus nomes a hotéis que não tivessem seu próprio DNA. Esse fato, of course, é uma garantia de que os hóspedes vão passar suas noites na companhia das personalidades escolhidas.

De minha parte, darling, os bons hotéis sempre serão aqueles com vocação para servir com simpatia e discrição, nos quais é possível sentir-se relaxadamente em casa. Se um perfumista acha-se no direito de transpor seu aroma para um hotel, eu diria que está mais do que na hora dos verdadeiros hoteleiros invadirem o mercado da moda. Fair enough, isn't it?

Que tal seriam os lançamentos da coleção Ritz Carlton para a primavera ou da nova linha de calçados Oberoi?

Os mercadologistas e defensores da sinergia - esta palavra tão em voga - haverão de me considerar antiquado por preferir um quarto aconchegante e um bar com grande variedade de scotch a hospedar-me em um hotel com aromas sofisticados e cortinas oriundas de uma passarela em Paris. E não os censuro porque vejo, nas ruas do mundo todo, pessoas que se portam como outdoors ambulantes, divulgando o nome de grifes em suas camisetas, como quem, in former days, divulgava uma ideia ou uma posição política.

Enfim, de que valem as considerações de um modesto viajante? Aproveito para lembrar a quem não resistiu ao apelo de hospedar-se na companhia de seu estilista preferido que a butique do hotel terá tudo o que falta para completar seu fetiche."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7

TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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