Dormir em dólares fica muito caro

Nosso incansável viajante está espantado com a enorme correspondência que vem recebendo versando sobre o dólar americano e sua valorização em relação ao real. Entre os diversos e-mails que recebeu, mr. Miles escolheu um, por ser representativo dos demais. 

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

03 Março 2015 | 00h00

Caro mr. Miles: sou uma fã de sua coluna e, desde que o senhor começou a me inspirar, estou me preparando para viajar e conhecer novas pessoas e novos lugares. Porém, esse aumento sem fim do dólar está destruindo meu sonho. Que providência devo tomar? 

Cristina Moura Taski, por e-mail

Well, my dear: entendo sua preocupação. O chamado ‘vil metal’ não é tão vil assim quando some de nossa realidade sem que possamos fazer nada a respeito. Don’t you agree? Tenho muitos amigos que guardam dólares embaixo do colchão ou de outras maneiras incomuns. Veja bem, Cris: eles não foram afetados em nada nesse preciso momento da economia. However, tenho certeza de que, em outros verões, quando o real se firmava, eles gostariam de arrancar seus cabelos. That’s life, my dear: um permanente sobe e desce de valores e hábitos que, ao fim e ao cabo, acaba nos livrando da monotonia.

Respondendo à sua pergunta, ouso, modestamente, dizer que a melhor providência, no momento, é continuar sonhando com a viagem. Sua preparação, I presume, deve ter sido juntar dinheiro e, embora você não tenha me dito para onde pretende ir, continue fazendo exatamente o mesmo esforço. For Christ sake, não use essa poupança para comprar uma geladeira nova, um carro mais potente ou qualquer dessas traquitanas oferecidas em canais de compra da tevê. Tenha foco, darling – você vai sair ganhando. Alguns amigos do mercado de capitais pediram que eu a aconselhasse a transformar sua poupança em dólares as soon as posible. Garantem-me eles que, em curto prazo, o real vai desvalorizar ainda mais. Além do que – isso afirmo eu – o fato de você ter dólares na mão vai melhorar muito o seu astral. Outra coisa: tudo que puder economizar até a viagem, transforme em dólares. Vai acontecer algo fantástico: você vai ficar mais rica em reais e ainda vai usufruir da baixa nos preços das companhias aéreas, que também vão perder passageiros com essa crise.

Lembre-se, always, que viajantes não precisam de dólares para viajar. Precisam de sonho e de informação. Os dólares são parceiros inquietos, que cismam em pular fora de nossas carteiras. Mas há como segurá-los, for instance, se você não fizer uma viagem de compras, se você dedicar-se exclusivamente a um destino, cortando custos de deslocamentos, aprendendo os lugares certos para comer (que, certamente, não são os estabelecimentos turísticos próximos das principais atrações), e, sobretudo, caminhando muito e com muita atenção. Isso significa flanar – e flanar é uma atividade prazerosa e muito econômica. 

Tenho um outro argumento para convencê-la a continuar tentando. Quando os países estão em crise por um motivo ou por outro – como, me parece, está o Brasil –, o astral fica muito baixo e pessoas como você que, I hope, não foram responsáveis por tudo o que está ocorrendo, devem se vingar da situação vivendo os dias melhores de outras civilizações. Sei que não está fácil encontrar destinos sem problemas nowadays. Mas aposto que você vai saber escolher. Faça como minha querida Krystyna, uma mulher admirável e muito consciente do valor das coisas. Certa vez, ao viajar com sua nora no gelado inverno de Washington DC – apenas para fazer turismo –, ela não hesitou em acordar a acompanhante em plena escuridão, às 7 da manhã. “O que aconteceu? Por que tão cedo?”, perguntou-lhe a nora. E recebeu a resposta rápida: “Temos de acordar cedo! Dormir em dólares sai muito caro.”

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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