Gabriela Biló/Estadão
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Mônica Nobrega
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Duas historinhas indígenas

Sabe onde praticamente não houve desmatamento? Nas terras indígenas

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 03h00

Duas historinhas indígenas do meu repertório de repórter viajante. A primeira, em uma comunidade Ticuna na região do Alto Solimões, quase na fronteira brasileira com Colômbia e Peru. Fui convidada por mulheres da aldeia a nadar com elas e suas crianças. Estava ansiosa para nadar no Rio Amazonas. Ao mesmo tempo, tinha medo: da força das águas e do pirarucu, peixe de pelo menos 2 metros de comprimento que eu tinha visto na casa flutuante de um pescador. Perguntei às mulheres se existia risco de um pirarucu nos atacar. Uma delas respondeu que os Ticunas não são atacados. Já eu, ela não podia garantir.

Riram todas e o intérprete Ticuna me explicou a brincadeira: é que nós, não indígenas, não sabemos entender as dinâmicas do rio. Pirarucu vive na água parada, diferente daquele ponto do Solimões, cor de terra e corrente. 

A segunda foi em Ubatuba. A aldeia Boa Vista, de indígenas Guarani, fica na serra. O Rio Prumirim desce o morro cruzando a comunidade, formando saltos e lagoas. Antes de deixar meu filho nadar, achei por bem perguntar ao guia da visitação, um jovem Guarani, se não existia risco de tromba d’água. Nenhum, ele garantiu. A tromba d’água não é um evento isolado, nem repentino: ela faz parte de uma movimentação integrada da natureza e avisa muito, muito antes que está a caminho. 

Vários estudos vêm mostrando que o desmatamento acelerou no Brasil, especialmente na Amazônia. Levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon, apontou que a devastação da floresta triplicou em março de 2021, em relação ao mesmo mês do ano anterior. Sabe onde praticamente não houve desmatamento? Nas terras indígenas, que foram responsáveis por apenas 1% da destruição. As áreas privadas tiveram 66% da culpa. 

Por esse imenso favor que fazem a toda a população brasileira de preservar o nosso direito ao meio ambiente saudável, os povos indígenas no Brasil são atacados e assassinados há mais de cinco séculos. Esses ataques se intensificaram no governo do presidente Jair Bolsonaro, que incentiva atividades predatórias como garimpo ilegal e extração de madeira, e faz vistas grossas à violência contra os indígenas. O argumento do presidente de que esses povos querem desenvolvimento econômico a qualquer custo não se sustenta - os Yanomamis chegaram a publicar uma carta de repúdio à visita de Bolsonaro ao seu território no Amazonas, na semana passada. Na Terra Indígena Yanomami, aliás, a aldeia Palimiú vem sendo atacada a tiros por garimpeiros; no Pará, outros garimpeiros incendiaram, na semana passada, as casas de famílias Munduruku. 

Não se trata de romantizar os povos indígenas. Trata-se, sim, de abrir os olhos para o óbvio, que qualquer visita rápida como as minhas mostram. Esses povos sabem “ler” a natureza e têm outra relação com a terra, a floresta, os rios, os animais. Trata-se de reconhecer que essa outra relação é mais respeitosa, justa e saudável para todos os envolvidos, e beneficia a todos nós, independentemente de visitas turísticas. Além de matar pessoas, estamos desperdiçando muito conhecimento. Um crime contra o nosso futuro, em todos os sentidos. 

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