Dubai: como curtir as 1.001 extravagâncias

Ricardo Freire, turista.profissional@grupoestado.com.br,

07 Janeiro 2011 | 10h00

 

  Era uma vez um emirado que, ao perceber o fim iminente de suas reservas de petróleo, resolveu valorizar a areia do deserto. Nascia a moderna Dubai, o mais impressionante e bem-sucedido case de especulação imobiliária da história. Onde só havia poeira brotou uma cidade futurista, com alguns (note o plural) dos skylines mais imponentes do planeta.

 

As cerejas do bolo - o hotel sete-estrelas com perfil de vela ao vento, a ilha artificial em formato de palmeira, o edifício mais alto do mundo, a estação de ski indoor - são meros detalhes; a maior extravagância de Dubai é existir nos termos em que se reinventou.

 

A crise financeira de 2008 pegou Dubai no contrapé. O ritmo das obras diminuiu e muitos prédios permanecem vazios. Do rés do chão, porém, o visitante não distingue o que está ocupado do que não está. E o próprio estilo local de construção, em que o acabamento externo é posto enquanto a obra ainda está subindo, faz com que muitos prédios inacabados pareçam prontos. Providencialmente, um socorro multibilionário do primo rico Abu Dabi impediu a falência do emirado - e garantiu a conclusão do maior edifício do mundo, que se chamaria Burj Dubai mas acabou rebatizado Burj Khalifa em homenagem ao emir vizinho.

 

Não é um lugar para viver autênticas experiências árabes - para isso existem o Marrocos, a Tunísia, a Jordânia, o Egito. Mas se você curte paraísos fabricados como Las Vegas, Orlando e Cancún, então Dubai é a sua praia.

 

No inverno é melhor. Entre dezembro e março a temperatura se mantém agradavelmente abaixo dos 30 graus e até a praia fica mais gostosa - mar calminho, águas fresquinhas. Comprólatras devem programar suas viagens para coincidir com o Dubai Shopping Festival, uma megaliquidação anual que, em 2011, está marcada para ocorrer entre 20 de janeiro e 20 de fevereiro. Em contrapartida, o verão não é para os fracos: entre julho e setembro é fácil os termômetros registrarem 50 graus (não é à toa que até os pontos de ônibus têm ar-condicionado). E como a presença do mar mantém a umidade constante, a temperatura não baixa muito à noite.

 

Para atrair visitantes no calorão, o emirado criou o Dubai Summer Surprises, a versão alto verão da liquidação de inverno, acrescentando shows e eventos voltados para famílias (neste ano, vai ocorrer entre 22 de junho e 31 de julho).

 

Na praia ou no centro? Na minha opinião, o lugar mais agradável para se hospedar é a região da Dubai Marina: a praia é ótima e há um calçadão, chamado The Walk, com restaurantes, lojas e feirinhas; é talvez o único lugar de Dubai onde seja gostoso caminhar. Alguns dos hotéis da área: Hilton Jumeirah, Mövenpick, Le Royal Méridien, Radisson Blu Residence. O lugar mais central para fazer todos os passeios e compras é a região de Al-Barsha, nas proximidades do Mall of the Emirates. Há um Kempinski e um Pulmann integrados ao shopping; no entorno você encontra hotéis com ótima relação custo-benefício, como o Citymax, o Ramada Chelsea e o Ibis Al-Barsha (mas tenha em mente que a região ainda tem muitos terrenos baldios; me lembrou Brasília nos anos 1970). A hotelaria mais sofisticada tem como ponto focal o belíssimo soukh Madinat Jumeirah; o complexo inclui três hotéis de luxo (Al Qasr, Mina a’Salam e Dar Al Masyaf) e tem como vizinhos o sete-estrelas Burj Al-Arab e o gigante Jumeirah Beach Resort (o melhor hotel para quem quer ter vista para o Burj). A nova fronteira de hospedagem é a ilha artificial Palm Jumeirah, onde estão o mega-resort Atlantis (a mais nova atração turística do emirado) e o romântico (e recém-inaugurado) One & Only Palm.

 

Vá de táxi. Zanzar pelas vias expressas e minhocões de Dubai com o conforto do carro do Gopal de Caminho das Índias não custa caro. O táxi do aeroporto à zona hoteleira mais distante, Dubai Marina, sai o equivalente a R$ 45 (para quase 40 minutos de percurso). Da Dubai Marina ao Mall of the Emirates a corrida fica em R$ 15. Do Mall of the Emirates ao Dubai Mall, menos do que isso. Use táxi para ir a restaurantes e às compras. Para percorrer todos os pontos turísticos, o melhor é comprar o passe de dois dias (equivalente a R$ 100) do Big Bus Dubai, que tem duas linhas complementares. No inverno, o andar de cima, sem cobertura, é perfeito para fotografar os skylines (note, de novo, o plural). Inicie o tour no Mall of the Emirates.

 

A velha Dubai (sim, existe!). Tire uma manhã para descobrir o único pedacinho de Dubai que não foi cenografado recentemente: a região do Creek, a laguna estreita onde a cidade começou. Vá de táxi (ou de Big Bus) até a margem norte (Bur Dubai) e visite o Dubai Museum, instalado no subsolo de um pequeno forte de adobe. Depois atravesse o Creek num típico abra, os barquinhos que fazem o transporte entre as margens por apenas 1 dirham (R$ 0,50). As fotos que você vai tirar nos cinco minutos de travessia tornam Dubai parecida com Istambul. Na margem sul - Deira - estão os mercados mais tradicionais da cidade: o soukh dos temperos, o soukh dos tecidos e o soukh do ouro.

 

No topo do mundo. O prédio mais alto do mundo (828 metros, 160 andares) tem também o mirante ao ar livre mais elevado da Terra (a 452 metros, no 124.º andar). Sai mais barato comprar a visita com hora marcada pela internet: 100 dirhams (R$ 50), contra 400 dirhams (R$ 200) para comprar o ingresso na bilheteria e subir na hora. É um programa para ocupar um dia inteiro: o Burj Khalifa fica integrado ao Dubai Mall, o maior shopping da cidade (e do mundo, em área construída). Além de todas as grifes que você possa imaginar, o shopping tem aquário (uma das paredes dá para o corredor do shopping), dois parques temáticos indoor e um rinque de patinação. Uma ala de restaurantes, a Promenade, tem mesas ao ar livre, de frente para a Dubai Fountain - que atrai multidões para os espetáculos de águas dançantes (criados e executados pela mesma companhia responsável pelo Bellagio de Las Vegas), de meia em meia hora a partir das 18 horas. Acabou? Não: do outro lado do lago existe um outro soukh cenografado (não tão bonito quanto o Madinat Jumeirah, mas enfim...).

 

Desert Safari X Genipabu. Outro passeio popularíssimo é o Desert Safari (entre R$ 90 e R$ 130, dependendo da agência) - que nada mais é do que a versão superproduzida dos nossos passeios de bugue nas dunas nordestinas. Em vez de bugue, você faz o passeio a bordo de Land Rovers com direito a ar-condicionado. Às 15h30 há sempre uma fila de jipões em frente aos hotéis para pegar os passageiros que fizeram reservas. A viagem ao deserto leva uma hora - mas as manobras radicais pelas dunas, metade desse tempo; Genipabu ganha tanto em termos de paisagem quanto de emoção. O que se segue, porém, deixa os nossos passeios de bugue no chinelo: cada agência cenografa um acampamento beduíno onde você janta assistindo a um show de dervixe rodopiante e dança do ventre. Antes do show dá para andar de camelo, pilotar um quadriciclo e descer uma duna de sandboard. Passam das 22 horas quando você é, finalmente, entregue de volta ao hotel.

 

Comer, beber, comprar. Não é preciso frequentar restaurantes estrelados para comer bem em Dubai: todos os lugares têm pelo menos o padrão de qualidade de boas redes de restaurantes (há muito pouca coisa original; predominam as franquias e as filiais). Comer sai mais barato do que em São Paulo (a propósito: em que lugar do planeta não sai, atualmente?), mas beber álcool faz a conta subir bastante (uma mera cervejinha pode sair por 30 dirhams (R$ 15). Para aproveitar a melhor culinária da região, aventure-se por restaurantes libaneses, persas e indianos; compre a revista Time Out, que sai toda a semana e tem uma ótima seção de gastronomia (inclusive indicando quais são os restaurantes "licensed", que servem bebidas). Antes de sair às compras para valer, aproveite que o Big Bus Dubai passa em todos os shoppings e dê uma entradinha para sentir o clima. É provável que você acabe fazendo o grosso de suas compras no Mall of the Emirates (que além de ótima variedade de lojas tem a estação de esqui coberta Ski Dubai).

 

Bate-volta a Abu Dabi. Apesar de mais rico (por ter muitíssimo mais petróleo), Abu Dabi não oferece o mesmo impacto visual que Dubai. O jeito mais prático de fazer um bate-volta é negociando um táxi para o dia inteiro; deve sair algo entre US$ 250 e US$ 300, mas vale a pena. O trajeto leva uma hora; ao chegar visite a Mesquita Sheik Zayed, a segunda maior do mundo, e depois vá conferir os excessos do The Palace, um hotel com interiores folhados a ouro. Termine o passeio no Ferrari World, o maior parque temático coberto do mundo; vá preparado para não se impressionar muito, mas de todo modo aproveite para andar na montanha russa mais veloz do planeta.

 

Pit stop. Muito antes de se tornar um destino, Dubai já funcionava como hub intercontinental. A Emirates tem voos para todos os destinos relevantes do Oriente Médio, da Ásia e da Oceania. Interromper uma viagem longa por 48 horas em Dubai não tem contraindicações.

 

Não se esqueça do visto. Dubai exige visto para brasileiros. A solicitação não é feita diretamente ao consulado, mas sempre por intermédio da aérea Emirates, do seu hotel ou de um agente de viagem.

 

 

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