Dupla nacionalidade

Quando soube que um pequeno grupo de brasileiros estava hospedado no mesmo hotel, na alsaciana Colmar, no leste da França, a turista da vizinha Suíça não escondeu o espanto: "O Brasil é muito, muito longe." Seu comentário foi pertinente. Na cidade que parece ter saído de um conto de fadas, não é nada comum encontrar brasileiros entre os franceses, alemães, suíços, belgas e italianos acostumados a visitar o pitoresco lugar.

VERÔNICA DANTAS / COLMAR, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2012 | 03h07

A presença dos viajantes do Brasil, aliás, não é frequente em nenhuma cidade da Alsácia, região que foi alvo de intensa disputa entre França e Alemanha durante séculos de história e passou definitivamente ao lado francês após a derrota dos alemães na 2.ª Guerra Mundial. A forte influência germânica, no entanto, permanece intacta, sobretudo na arquitetura e na culinária.

Tanto em Colmar como nas outras cidades da região, comer chucrute é tão normal quanto o nosso arroz com feijão. Os cardápios passeiam tranquilamente também pela sofisticação do foie gras de ganso, uma iguaria típica da Alsácia, e pelas carnes de javali e veado - a caça é permitida ali.

Os alsacianos de toda parte se orgulham da fama que a região ostenta de ser a mais florida da França. Comemoram também que os vinhos e cervejas que produzem estejam entre os melhores do mundo. Mas não gostam nada quando a Alsácia é associada à vizinha Lorena. Geograficamente próximas, as duas regiões têm em comum o fato de terem sido disputadas pela Alemanha no passado, é verdade. Mas nada têm a ver uma com a outra atualmente, fazem questão de esclarecer os moradores.

Pequena notável. Colmar é pequena se comparada à capital regional Estrasburgo, mas tem importância política respeitável, de acordo com o presidente da Associação de Turismo da Alsácia, Jean Klinkert. Com 110 mil habitantes, 60% deles instalados no centro, abriga dois dos 30 restaurantes alsacianos com estrelas no Guia Michelin, referência na gastronomia mundial. A cidade é, ainda, o melhor lugar para se hospedar e fazer bate-voltas às vilas medievais dos arredores, graças à sua boa localização, quase no centro da região. E, como tem apenas 2,2 mil leitos em hotéis, de um total de 50 mil em toda a Alsácia, costuma lotar em dias de folga. "Nos fins de semana os hotéis de Colmar ficam 100% ocupados", cita Klinkert.

Andar por suas ruas e observar seus canais é como estar dentro de um livro de histórias infantis. A Petite Venise (Pequena Veneza, em português) é, sem dúvida, a parte mais charmosa da cidade. Tudo é caprichosamente enfeitado com flores. Cada janela esconde um detalhe charmoso e cada construção conta um pouco de história.

Foi em Colmar que nasceu Frédéric Auguste Bartholdi, criador da Estátua da Liberdade, um presente da França aos Estados Unidos que virou símbolo americano. O museu que leva o nome do escultor fica no número 30 da Rue des Marchands (musee-bartholdi.com).

Outro acervo imperdível na cidade é o do Museu Unterlinden (leia mais ao lado), cuja coleção de obras da Idade Média ao Renascimento pode visitar o Brasil em breve, se depender do empenho do francês radicado no Brasil Romaric Büel, ex-adido cultural da França no País. Büel pretende que algumas peças sejam exibidas em solo brasileiro em 2013, com passagens pelo Rio, Belo Horizonte e Ouro Preto. "São obras que nunca foram expostas na América Latina", diz ele.

Bem perto de Colmar, a caminho de Mulhouse - cidade que fica a 15 quilômetros da fronteira entre França e Alemanha - outra atração imperdível é o Ecomuseu da Alsácia (ecomusee-alsace.fr), onde 72 casas rurais com arquitetura alsaciana dos séculos 16 a 18 mostram como já foi a vida na região. A parte interativa da visita fica por conta das aulas artesanais de madeira, argila e metal, entre outras, voltadas ao público infantil.

De volta a Colmar, não hesite em puxar conversa com um de seus moradores. Os jovens, em geral, falam inglês. Os mais velhos, no entanto, respondem bem se você for educado o suficiente para iniciar a conversa com um "bonjour madame" ou "bonjour monsieur".

Contrariando a fama de que o povo francês não é muito solícito com quem não fala seu idioma, foi em Colmar que me deparei com uma senhora que, sem saber, reforçou a imagem de cidade hospitaleira que identifiquei na chegada. Havia saído para desbravar o centro e me perdi entre tantas ruelas, todas belas - e muito parecidas a olhos não habituados a elas.

Abordada na rua, em inglês, a simpática francesa não hesitou em se oferecer para telefonar ao meu hotel apenas para se certificar do endereço. Em seguida, mudou seu trajeto original e me deixou praticamente em frente ao estabelecimento. Fiquei encantada com tanta gentileza. Um motivo a mais para pensar em voltar um dia.

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