É possível viajar errado, mas errado é não viajar

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 07h04

Um estafeta astuto e persistente logrou encontrar Mr. Miles em um bar da Lapa, no Rio de Janeiro, chamando mais a atenção das belas cariocas ao seu redor do que um jogo de futebol do Brasil pela Olimpíada. Mr. Miles recebeu a carta suavemente caligrafada de sua leitora Tereza Rocha, que contou ter feito, como compositora, parcerias com Drummond, Ferreira Gullar e Mário Quintana – só para citar velhos amigos do viajante britânico. Na expectativa de conhecê-la pessoalmente, nosso correspondente agradece “a bondade de suas palavras”.

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: existem viagens erradas? Quero dizer: pessoas mal-informadas podem acabar em lugares que não sonharam?

Rodolfo Viettes, por e-mail

Well, my friend: em teoria, só são equivocadas aquelas viagens – raras, by the way – em que o viajante erra o caminho ou sobe em um ônibus ou trem que parte em direção diferente da desejada pelo pobre cidadão. Chamamos a isso de distração. Ocorre, em geral, com pessoas confusas ou ligeiramente embriagadas – e apenas quando os checadores de passagem também estão com a cabeça na lua.

However, existem viagens erradas de fato. São aquelas em que a expectativa do viajante não combina com a realidade do destino. A maior parte delas é provocada por desinformação. Alguém que viaje ao Caribe entre agosto e outubro dificilmente encontrará o sol mágico e eterno dos panfletos de agências de viagem. Nessa época é mais provável sofrer com a chuva ou, pior, com o horror de um furacão. Existe até um ditado em inglês sobre o clima caribenho: “July? Stand by! August? A must! September? Remember! October? All over.”

Para evitar incorrer nesse tipo de erro, informação é o único jeito. Ou – why not? – corra o risco. Não existem meses mais baratos do que esses para viajar pelas Índias Ocidentais. E os furacões, of course, podem sempre passar ao largo.

Há, também, viagens com expectativas inadequadas. Quando você escolhe um pacote barato, é preciso estar preparado para hotéis que não se destacam pelo glamour ou pela localização. Há, é claro, a possibilidade de antever a hospedagem na internet. Mas cuidado: as poderosas grande-angulares estão sempre prontas para transformar uma pequena toca numa linda caverna. Do you know what I mean?

Nevertheless, a viagem equivocada, dear Rudolf, é aquela que frustra as expectativas de quem viaja. A Polinésia, por exemplo, é um dos lugares mais fabulosos do planeta para receber casais apaixonados, em fase de apaixonar-se ou em fim de paixão. Assim também são as Maldivas. Mas quem for a um desses destinos em busca de balada, atividades familiares ou mera prospecção vai dar com os burros n’água. Assim como quem achar que é possível fazer viagens econômicas para lugares desse tipo. Não: nem pense nisso. Esses destinos só são fabulosos se aproveitados em todo o seu alcance. É preciso ficar nos mais belos overwater bungalows (bangalôs sobre as águas), dar atenção às mordomias, à gastronomia e aos spas. É preciso ter o terrível desapego de jamais olhar para a coluna da direita nos cardápios e constatar que seu vinho está custando quase tanto quanto um vinhedo e que seu hamburger, sometimes, daria para comprar uma lanchonete.

Desapegue-se, my friend: venda o seu segundo carro, penhore a joia que está na sua familia há seis gerações ou, my God, assalte um banco. Mas há lugares para os quais é preciso ir em grande estilo. Ou, alternativamente, deixar para depois.

Anyway, my friend, errado mesmo é não viajar. Por medo de errar ou por qualquer outro motivo, a pior das falhas que alguém pode cometer é deixar de conhecer o mundo a que ele pertence. Don’t you agree?

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.