Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Editores de lugar e de tempo

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2017 | 05h00

Nosso surpreendente viajante informa ter encerrado uma caminhada de 60 quilômetros pelos Cárpatos, que estava especialmente difícil em função da neve e das geleiras. Além de um pequeno e tradicional incomodo nos joelhos, Mr. Miles só sentiu prazer e ficou decepcionado porque levou 20 minutos a mais do que no ano anterior, o que poderia ser uma mostra de envelhecimento. “Well, não foi tão mal assim, porque perdi pelo menos uma hora ajudando a fazer talas e curativos em jovens que ficaram pelo caminho.”

O bravo viajante britânico continua nos surpreendendo. Interpelado por qual razão decidiu fazer essa caminhada em pleno inverno, Mr. Miles foi objetivo: “Eu precisava do prazer da endorfina para contrabalançar a repulsa que esse novo presidente americano me causou.” A seguir a correspondência da semana. 

Querido Mr. Miles: fiz uma viagem de 20 dias pela Itália e adorei. Há problemas por lá? Sim, mas menos do que aqui. Só me incomodou a sensação de que poderia ter escolhido melhor. Em muitos lugares fiquei pouco tempo; em outros, tempo demais. E houve tanto que eu senti ter perdido... Como devo fazer da próxima vez? 

Adelina Batista Novelli, por e-mail

Well, my dear: eis a questão que aflige a todo viajante de estirpe. Unfortunately, não me parece que desenvolveremos o dom da onipresença. Somos todos, therefore, editores de lugar e de tempo. Assim como os editores de jornal e revista, estamos o tempo todo confrontados com a Escolha de Sofia, que minha querida Meryl (N. da R.: Meryl Streep, grande atriz de Hollywood) transformou na mais insuportável das dores ao atuar no filme do mesmo nome. 

Editar é possuir um poder exageradamente grande. Cabe a esses profissionais escolher o que entra e o que não entra em uma história que vai tornar-se pública. Se mostra vítimas espancadas em uma manifestação ou se muda a opinião do leitor exibindo policiais feridos no chamado ‘cumprimento do dever’. 

Ao viajarmos, dear, somos os editores de nosso destino. Escolhemos o que pensamos ser o melhor para nós e muitas vezes nos decepcionamos. O que, besides, não é nenhuma surpresa. Como não nos engana o fato de que escolhemos bem, mas escolhemos pouco. Eis outro dilema do editor: que espaço dar para cada história, a que foto atribuir maior destaque and so on

É necessário deixar claro, however, que a certeza desse poder de escolha nos deixa mais fortes, criteriosos e bem-intencionados. Ao planejar sua giornata pela belíssima península, você fez seus estudos: anteviu o que esperava ver, sentiu o aroma de pratos que iria comer, escolheu os passeios e enfrentou suas dúvidas: foi o rascunho de sua edição. Sometimes it works; sometimes not

Meu amigo Thedor Barnes – companheiro de pub em longas discussões – não quis me ouvir e foi para o Egito sem guia ou companhia. O resultado foi desastroso. Permanentemente enganado, Barnes comprou papiros feitos de papel couché, pedaços ‘autênticos’ da pirâmide de Quéops, tapetes orientais que atestei terem sido produzidos em uma indústria belga e um apavorante cruzeiro até Luxor, durante o qual sua mala foi saqueada duas vezes e, by the way, ninguém levou os produtos que havia adquirido. 

Típico caso de edição equivocada, daqueles que leva um leitor a cancelar sua assinatura. As for you, darling, fique feliz: o mundo todo e o resto da Itália seguem esperando sua visita. Você vai ver que, nesse caso, o que parece ruim é muito bom. 

Eu, como é de conhecimento geral, viajo pelo menos 250 dias a cada ano – e tantos anos tenho que não vale a pena sequer contar. Sempre que retorno, however, sinto que ainda há muito mundo para eu editar e mostrar a vocês. Melhor ainda: essa perseguição pelos lugares jamais haverá de acabar.”

 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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