Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Em Barcelona, Montjuic tem os traços de Miró e dos Jogos de 1992

Região onde está o Parque Olímpico de Barcelona também reserva museus, entre eles a Fundação Joan Miró

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

O que faz com que a gente se aproxime de uma obra de arte com maior interesse? O que as outras pessoas enxergam ou sentem quando estão diante de uma que eu também estou? Essas perguntas passaram pela minha cabeça enquanto eu observava os grupos de crianças e adolescentes que visitavam a Fundação Joan Miró naquela manhã.

O barulho, inevitável, me fez pensar que havia escolhido o dia e o horário errados. Depois achei graça. Como se aquelas crianças em frente a obras de arte, opinando livremente sobre elas, fossem mais que observadoras: compunham um espaço artístico que dialoga com seus visitantes. Liberdade de imaginação e de circulação: assim é o espaço cultural criado pelo espanhol Joan Miró na região do Parque de Montjuic, a 30 minutos de ônibus do Paseo de Gracia. 

Barcelonense de 1883, Miró rompeu os muros da Catalunha e espalhou sua arte – pinturas, litografias, esculturas, trabalhos com cerâmica e material têxtil – por todo o mundo ao longo de seus cem anos de vida. Passou por Paris, Mont Roig, Nova York, Japão e Mallorca. Conheceu Picasso, Breton, Hemingway. Circulou por movimentos artísticos, produzindo materiais com propostas variadas, como se vê na ampla coleção da fundação criada em 1972. 

 

Os traços exatos de Retrato de Una Niña (1919) parecem nem pertencer ao mesmo autor dos traços (aparentemente) anárquicos de El Guante Blanco (1925) ou de El Oro del Azur (1967), apesar do jogo de cores, sempre intensas, prevalecer em ambos – e na maioria de suas obras. Mesmo quando elas expressam críticas sociais e políticas, como Hombre y Mujer Frente a un Montón de Excrementos (1935), duro olhar sobre a Guerra Civil Espanhola e suas consequências, e Mayo 1968 (1973), espécie de ode ao movimento revolucionário da juventude que foi às ruas em Paris há 50 anos. 

As esculturas têm espaço de destaque nas salas e também nas áreas externas, onde mais um grupo de crianças se espalha para reproduzir o que estão enxergando. Eu diria para elas, se me pedissem opinião, o quanto são curiosas aquelas em que Miró ressignifica objetos do cotidiano e como me impressionou ver a tapeçaria Tapiz de la Fundación (1979), uma enorme tapeçaria de diferentes texturas pendurada em uma das paredes.

A Fundação Joan Miró só fecha às segundas-feiras – ingressos desde 12 euros (com audioguia, 17 euros).

 

LEGADO OLÍMPICO

​O espírito criativo surrealista de Miró também inspirou o logo mais famoso da história dos Jogos Olímpicos. O artista Josep Maria Trias lançou mão de três pinceladas – uma azul, uma amarela e uma vermelha – para retratar um atleta saltando sobre o título Barcelona e os anéis olímpicos em 1992, quando a cidade recebeu a competição. Foi o suficiente para eternizar o logotipo.

 

E é justamente no Parque Montjuic, onde está a Fundação Joan Miró, que a Olimpíada de 1992 foi realizada. Barcelona, assim como o Rio, remodelou sua área portuária para o evento e fez de Montjuic um agradável ponto turístico, cujo legado olímpico ainda pode ser visitado – há ali uma torre de telecomunicações projetada pelo espanhol Santiago Calatrava.

De graça, por exemplo, dá para acessar o Estádio Olímpico Lluís Companys, construído para a Exposição Internacional de 1929, primeiro grande evento mundial em Barcelona, e posteriormente reformado para receber os Jogos. Quem gosta do tema pode visitar ainda o Museu Olímpico e de Esporte Joan Antoni Samaranch (desde 5,80 euros)

Entre arte e esporte, porém, há muito verde. Tanto que Montjuic é considerado o “pulmão” de Barcelona. Há ainda outras construções que fazem parte da história local. Se tiver tempo e quiser ver tudo, dedique um dia inteiro à região. Assim dá para ir ao Castelo de Muntjuic, dentro da fortaleza que, desde o século 17, foi alvo de bombardeios e invasões (5 euros); o Jardim Botânico; a Fonte Mágica e o Palácio Nacional, construídos para a Exposição de 1929; os mirantes e trilhas do parque; e outros museus, como o de Arqueologia e o de Etnografia. 

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